A Igreja de S. Roque do Funchal

A Igreja de São Roque fica situada na freguesia a que deu o nome (Anexo 1). Os terrenos desta freguesia pertenceram primeiro à freguesia da Sé e depois à de São Pedro, como aliás aconteceu com a freguesia de São Martinho. As duas paróquias desmembraram-se da de São Pedro no mesmo ano e através de diploma da mesma data, quando a diocese estava sob a égide de D. Jerónimo Barreto (Anexo 2).

Esta freguesia herdou o nome da pequena capela de São Roque que ali existia e onde foi criada a sede da nova paróquia. A ermida havia sido construída pelos moradores do sítio antes da criação da paróquia - provavelmente em 1530, com a ajuda da Câmara, porque São Roque é um dos santos protectores da cidade.

A Igreja localiza-se no concelho do Funchal. Acede-se a ela através do Caminho do Lombo Segundo e do Caminho da Igreja Nova.

O seu enquadramento é o seguinte - Norte: Residência paroquial; Leste: Escola Oficial; Oeste: Caminho do Lombo Segundo; Sul: Caminho da Igreja Nova, conforme planta em anexo.

Construção

A sua construção remonta ao século XVI quando, em 1579 o alvará régio do cardeal D. Henrique, de 3 de Março de 1579, cometeu ao prelado diocesano D. Jeronimo Barreto a faculdade de criar a freguesia de São Roque, arbitrando ao respectivo pároco a côngrua anual de 14.000 réis em dinheiro, meio moio de trigo e um quarto de vinho(1).

Em 1580 já se fizeram obras para a edificação da nova igreja(2).

Em 1581 um Alvará de Felippe I de Castela de 16 de Julho de 1581 dá mercê anual de 4$ à fábrica da Igreja de S. Roque - Livro 7, página 30 do Registo da Antiga Provedoria da Real Fazenda do Funchal.

Nove anos mais tarde o alvará régio de 16 de Janeiro de 1589 - Alvará de Fellipe de Castela de 16 de Janeiro de 1589 de acrescentamento de 5$000 reais, 30 alqueires de trigo e um quarto de vinho ao Vigário para ter de sua ordenado 19$, um moio de trigo e uma pipa de vinho - Livro 1, página 19 do Registo da Antiga Provedoria da Real Fazenda do Funchal - elevou esse vencimento a 19.000 réis em dinheiro, meio moio de trigo e um quarto de vinho.

O alvará de 30 do mesmo mês e ano acrescentou mais 3.000 réis em dinheiro e meio moio de trigo - Alvará do Senhor Rey de 30 de Janeiro de 1589 do acrescentamento de 30 alqueires de trigo a quarto do vosso vigário para as despesas da sacristia e 3$000 reis pelas missas dos Infantes - Livro 1, página 30 do Registo da Antiga Provedoria da Real Fazenda do Funchal.

Na Visitação de 1589 feita pelo Cónego licenciado Manuel Afonso Arrais pode ler-se: "A casa em que o Vigário desta igreja vive é de palha e muito húmida e por ser tal se lhe pode muito facilmente pegar o fogo e queimar-se a igreja por estar muito pegada com ela. Mando ao Vigário que dentro em dois anos faça uma casa de telha com suas paredes ao redor muito boas, sob pena de para esse efeito lhe ser sequestrado todo o acrescentamento de que sua majestade novamente lhe fez mercê e aos freguezes encomendo muito, visto a pouca renda que o Vigário tem, o queiram ajudar a fazer casa para que sempre possa residir em sua freguesia.

Mando requerer um sino pelo não ter o que eles não requereram, os ditos fregueses, com pena de mil reis. O requeiram a sua majestade"(3).

Em 1590 o Alvará do Rei de 14 de Março de 1590 ordenou para em conformidade do Capítulo de Visitação do Bispo D. Luiz de Figueiredo fazer a sacristia e vestuário - Livro 2, página 175 do Registo da Antiga Provedoria da Real Fazenda do Funchal.

A Visitação de 1601 feita pelo mesmo Cónego licenciado Manuel Afonso Arrais registou: "Tem esta Igreja o campanário no canto da banda de baixo pegado com a capela mor o qual por ser pequeno quando se tange o sino abala o arco e o tem todo aberto e em perigo de cair.

Mando aos freguezes que façam a porta principal da banda de cima hum perpianho de pedra e cal e nele um campanário capaz do sino que está provido sob pena de dois mil reis e sob a mesma, mandem requerer a sua majestade e entretanto se tirará logo o sino e se porá em dois paus para que não caia o dito arco"(4).

No ano de 1678 foi emitido um mandado do Contador da Fazenda do Funchal de 20 de Junho de 1678 para se dar à dita Igreja uma Cruz de Prata - Livro 11, página 150 do Registo da Antiga Provedoria da Real Fazenda do Funchal.

O Conselho da Fazenda do Funchal, de 19 de Maio de 1704, determina que seja dada de arrematação a construção da nova igreja e da sacristia pela importância de 795$000 réis, o que parece levar a concluir que a igreja actual foi edificada naquele ano [Mandado do dito contador de 19 de Maio de 1704 para se rematar a obra da nova igreja e sacristia - Livro 14, página 132 do Registo da Antiga Provedoria da Real Fazenda do Funchal]. Esta construção ou antes acrescentamento deu-se na capela que existia no sítio ainda hoje conhecido pelo nome de Igreja Paroquial, que julgamos ser o local da primitiva capela de São Roque.

Em 1712 há um mandado do contador de 30 de Abril de 1712 para a remessa de 706$ para pagamento de três ornamentos de Damasco - Livro 14, página 341 do Registo da Antiga Provedoria da Real Fazenda do Funchal.

Parece que foi pouco sólida essa construção, pois em 1790 abateu a igreja, ficando incapaz de ser aplicada ao serviço do culto. As funções religiosas passaram a ser exercidas na capela de Nossa Senhora de Betancourt(5).

A igreja actual começou a ser edificada no princípio do século XIX, mas foi morosa a sua construção, tendo sido dadas por concluídas as respectivas obras por meados do mesmo século. Entretanto, foi servindo de igreja paroquial desde os anos de 1820.

Durante o governo de José Silvestre Ribeiro (desde, pelo menos, 07-10-1846) até o dia 18 de Março de 1852 gastaram-se na reconstrução ou reparação desta igreja pelo Cofre Central 260$650 e pelo Cofre das Confrarias 140$000, num total de 400$650(6).

Em 1891 a igreja foi atingida por um raio durante uma tempestade como se pode ler na notícia de O Direito n.º 2219 de 15-07-1891 (Anexo 3).

O Orago

O Orago, São Roque, foi eleito Santo protector da Cidade no ano de 1523 quando grassava a peste (Anexo 4). Sobre este santo lemos no dicionário(7) "Nasceu em Montpellier (cerca de 1293 - cerca de 1327). Dedicou-se ao tratamento dos pestíferos. Sucumbiria ele próprio ao flagelo, num lugar solitário, se não fosse descoberto por um cão, cujo dono o mandou tratar de modo a conseguir a sua cura. Conta a lenda que, enquanto o santo vivia no deserto, um cão, seu fiel companheiro, lhe trazia todos os dias um pão que mão desconhecida lhe dava. Festejado em 16 de Agosto. O poder de curar a peste tornou S. Roque muito popular. O Tintoreto, o Guido, Anibale Carracci, Rubens, etc., pintaram quadros alusivos a este santo. A citar, ainda os quadros de L. David: S. Roque Implorando a Virgem para os Pestíferos (Marselha); S. Roque com o Anjo, pintura de Paul Morand, na National Galery, de Londres". No Museu Grão Vasco, de Viseu, há um quadro de Vasco Fernandes, representando São Roque com o seu bordão de peregrino.

Descrição

Planta longitudinal Norte/Sul composta de uma só nave e capela-mor rectangulares, com dois altares laterais. Adro murado e gradeado com empedrado a calhau rolado (junto à escada a data, em pedra rolada branca, de 1979 - possivelmente a data da última intervenção na manutenção do adro) e bancos laterais com assento em cantaria, com uma escada de acesso de catorze degraus. Sacristia e serviços adonados a Oeste. Volumes articulados simples com cobertura de telha de canudo com quatro, três e duas águas, com beiral duplo da mesma telha.

Fachada principal, com quarenta e cinco metros de comprimento e vinte de largura, orientada a Sul em empena aguda com cornija de balanço de cantaria e encimada por uma cruz de pedra do Porto Santo. Portal de arco de volta perfeita, em cantaria cinzenta, com pilastras laterais assente em bases altas e capitéis sobre os quais assenta frontão curvo interrompido, enquadrando inscrição em pedra do Porto Santo: "NA FELIZ REGENCIA DO SERENISSIMO PRINCIPE D JOÃO NOSSO SENHOR A CUSTA DE SSUA REAL FAZENDA FOI MANDADO LEVANTAR ESTE TEMPLO CONSAGRADO AO GLORIOSO S ROQUE DE BAIXO DA INSPECAO DA REAL JUNTA EM O ANNO DO SENHOR DE MDCCCII" (Era regente o futuro rei D. João VI); portadas de madeira com bandeira superior fixa, com almofadas rebaixadas, e decoradas com incisões, tudo pintado a castanho. Uma janela inferior com moldura de cantaria, fortemente gradeada, do lado do Evangelho. Três janelões superiores com moldura de cantaria e vidraças de guilhotina, o central assente no frontão e com as armas reais em cima. Torre sineira quadrada, adonada a oeste, ao nível da fachada, com remate superior em "chapéu de cónego", com relógio, assente em cornija de cantaria, molduras das janelas dos sinos em alvenaria pintada a cinza, pequena janela virada a Oeste com moldura de cantaria e vidraças de guilhotina. Porta em madeira pintada com moldura de cantaria, virada a Norte.

Fachada Este com embasamento pintado a cinza, duas portas e quatro janelas fortemente gradeadas no piso inferior com moldura de cantaria. No piso superior quatro janelas de guilhotina com moldura de cantaria. Escadaria a oeste com dois lanços de degraus de cantaria e muros debruados a cantaria com passadiço sob arco abatido de acesso ao primeiro piso da antiga casa paroquial.

Fachada Oeste com embasamento pintado a cinza, duas portas e três janelas (uma delas muito mais estreita que as outras) com moldura de cantaria, fortemente gradeadas, no piso inferior. No piso superior três janelas de guilhotina com moldura de cantaria. Esta fachada fica recuada em relação à torre sineira e à Capela do Santíssimo, orientada a Oeste em empena aguda com cornija de balanço de cantaria e encimada por uma cruz de cantaria, com janela fortemente gradeada, com moldura de cantaria, virada a Sul.

Fachada Norte completamente cega, fechada pela actual casa paroquial.

Interior com entrada por sub-coro com três arcos abatidos com rebordo de madeira, com paravento central em madeira à vista, bandeira com arabescos de ferro forjado com a frase "Vencerás por este sinal" encimando uma cruz e pilastras de madeira assentes em estilóbodas, chão de madeira de casquinha com a entrada em laje de cantaria cinzenta; paredes com lambril de azulejos policromados actuais e alisar de cantaria cinzenta; tecto em caixotão de madeira pintada com quadros de motivos religiosos, um deles alusivo a São Roque, em que este está rodeado por anjos, um dos quais segura uma faixa onde se pode ler "ERIS IN PESTE PATRONUS" e assente em cornija de madeira pintada. Coro-alto, com balaustrada de madeira, tendo no sub-coro, do lado da Epístola, pia de água benta em mármore rosado continental, ao gosto dos séculos XVII/XVIII com base em pomos e rebordo saliente. Do lado do Evangelho baptistério com acesso por arco de volta perfeita de cantaria e porta de madeira escura de balaustradas torneadas, no interior pia baptismal, chão e alisar de cantaria cinzenta, cornija em madeira à vista. Na parede lateral virada a Sul janela de guilhotina e na parede virada a Norte pequena porta, que se supõe conduzir ao Coro. A parede frontal é decorada com um quadro deste século representando São João a baptizar Jesus.

Do lado do Evangelho, porta de madeira pintada com moldura de cantaria e púlpito em madeira pintada, assente sobre mísula com baldaquino recortado, na parte inferior deste inscrevem-se os símbolos do Espírito Santo. O acesso ao púlpito é feito através de uma pequena porta situada no interior da Capela do Santíssimo.

Ainda do lado do Evangelho situa-se a Capela do Santíssimo Sacramento, com arco de volta perfeita em cantaria cinzenta. De cada lado, junto ao arco, uma porta em madeira pintada de branco com filete dourado a cercar as almofadas. Acede-se ao altar por quatro degraus de cantaria. O altar em talha branca e dourada, ao gosto da oficina de Mestre Estêvão de Nóbrega tem um nicho central entalhado coberto com frontão interrompido e entalhado e frontispício decorado com cálice e hóstia rodeado por ramos de vinha. Sacrário de três andares com pares de colunas torsas profusamente entalhado ao gosto dos finais do século XVII. Na parede lateral Sul janela de guilhotina. Na parede lateral Norte lampadário de prata com correntes de laço, com 1,23 m de altura e 7.150 Kg de peso, data do séc. XVIII, o reservatório tem gravado um golfinho entre uma inscrição ilegível e a data de 1788.

Do lado da Epístola e encimando uma porta lateral, de madeira pintada com moldura de cantaria, no vão da qual se encontra um confessionário de madeira, quadro deste século representando um franciscano tirando Cristo da cruz. Ainda no lado da Epístola e fronteira à capela do Santíssimo, cercada por um arco de volta perfeita de cantaria negra e cinzenta, imagem do Sagrado Coração de Jesus em madeira policromada e dourada, com resplandor de prata, assente sobre mísula branca e dourada.

A capela mor é demarcada da nave por balaustrada torneada de madeira. O acesso à capela mor faz-se através de um arco triunfal em cantaria negra e cinzenta, ladeado por altares colaterais de finais do século XVIII ao gosto da oficina de Mestre Estêvão de Nóbrega, com nicho central entalhado coberto com frontão interrompido e entalhado. Dos dois lados do arco encontram-se duas mísulas torneadas em madeira. Do lado do Evangelho o altar é de invocação provável a Nossa Senhora da Imaculada Conceição, imagem em barro policromado do século XX, tendo no plano inferior uma imagem de São José em barro cozido e policromado, provavelmente do século XX, de Mestre Tendim, com resplandor de prata. Do lado da Epístola invocação a Cristo crucificado, tendo em plano inferior três imagens: uma de Nossa Senhora de Fátima com uma magnífica coroa em filigrana portuguesa com pedraria; outra de Santa Rita de Cássia e uma de São João Baptista todas em barro cozido policromado, provavelmente do século XX.

Na capela mor, paredes com lambril de azulejos policromados actuais. Uma porta pequena de madeira com moldura de cantaria de cada lado do altar. Tecto de madeira de perfil curvo pintado (autoria possível de António Gouveia - entre 1930/50) tendo no centro um ornamento onde se lê "ERIS IN PESTE PATRONUS", referência ao orago da igreja e assente em cornija de madeira pintada. Duas janelas junto à cornija, uma de cada lado do altar mor proporcionam luz natural. Altar ao gosto de Mestre Estêvão de Nóbrega com grande nicho central apoiado por dois nichos laterais. Frontão curvo e entalhado. Ladeado por colunas com motivos de hera na base. O camarim central em arco perfeito é decorado com drapeados dourados e ocupando o Baldaquino a imagem de São Roque, século XVIII, em tamanho natural, com bordão e resplandor de prata(8).

No nicho esquerdo imagem de Sant' Ana e no nicho direito imagem de São Joaquim, ambas do século XVIII, em madeira policromada e dourada.

Na base do altar mor crucifixo de banqueta de talha dourada ladeado por seis castiçais também de talha dourada ao gosto de finais do século XVIII.

Em ambos os lados da capela mor portas de madeira com moldura de cantaria. A do lado do Evangelho dá acesso a uma sala grande de arrumações. A do lado da Epístola dá acesso à àrea de serviços, a Norte e à Sacristia, a Sul.

Na sala virada a Norte, que se supõe servir para aulas de catecismo e reuniões há um armário alemão do século XVII em estilo barroco, um lava-mãos de cantaria de basalto e uma arca de confraria provavelmente em madeira de barbuzano(9) com ferragens e três fechaduras(10).

Na Sacristia móvel de madeira polida com tampo de mármore cinzento, e outro do mesmo material, com quatro prateleiras e nove gavetas de diferentes tamanhos, onde se guardam alguns objectos do culto, ambos do século XX. Sobre um armário de metal imagem em barro policromado representando provavelmente, São Expedito (ou São João de Deus) com dois índios convertidos. Sobre o armário com tampo de mármore, crucifixo de banqueta em talha dourada, ao gosto dos finais do século XVIII, um quadro ao gosto da Escola de Rembrandt, com tema sacro - investidura de santo (?), no meio um senhor claramente flamengo, século XVII, provavelmente. No outro armário entre vários objectos de prata (jarros de água e vinho, bandeja, vários cálices) destacam-se: naveta de prata profusamente trabalhada, do século XVIII; cálice em prata dourada do século XVI com base dos séculos XVII/XVIII; cálice em prata do século XVII.

Esta igreja é ao gosto da época barroca, com fachada neo-clássica e um certo estilo neo-maneirista.

Património

Nas dependências da igreja existem, segundo inventário da DRAC, uma imagem de São Roque (residência paroquial da freguesia de São Roque, provavelmente vinda do antigo convento de São Francisco) - madeira policromada e dourada, com 0,30 m de altura, século XVI e imagens de Santo António e São Bento em madeira policromada e dourada do século XVII e uma imagem de São Pedro em madeira policromada e dourada século XVII, está revestido por um tecido estofado, sobre o qual é feita a pintura para além de uma imagem de São José em barro cozido e policromado com 0,76 m do século XVI.

Durante muito tempo permaneceu nesta igreja uma pintura de Nossa Senhora da Esperança referida por Henrique Henriques de Noronha: "A Imagem da Senhora da Esperança, pintura antiga, tem caza propria na freguezia de S. Roque; e he muito milagroza; como se deixa ver dos vottos que lhe oferecem os que buscão o seu Patrocinio"(11). E "Existe numa dependência da igreja paroquial, um painel vindo da capela de Nossa Senhora da Esperança, hoje desaparecida, datado de 1588, com um metro de largo e dois metros de altura. É composto pela Virgem coroada, no meio de seis cabeças de anjos alados, tendo no regaço o Menino. A Virgem aparece sobre nuvens, vestida de vermelho e túnica azul, em socorro de embarcações de alto e pequeno bordo, acompanhada de uma estrela dourada que refulge a seus pés. Por baixo o mar encapelado, sob um ambiente de tempestade parece querer sossobrar as embarcações, enquanto na praia um grupo de naúfragos ou marítimos movem-se alvoroçados por tão ameaçadora tampestade"(12). Esta pintura encontra-se actualmente no Museu de Arte Sacra(13).

Encontram-se também no Museu de Arte Sacra, provenientes desta igreja, a Deposição no Túmulo, representando Nossa Senhora, S. João, Maria Cleophas e Cristo jacente, pertencente à Escola flamenga, Malines (?) de inícios do século XVI, em madeira de carvalho, estofada e policromada. A figura de Cristo jacente apresenta uma policromia de um repinte do século XVIII. É provavelmente originária da antiga Igreja de São Roque ou Convento de São Francisco do Funchal. (Encontrado no interior do altar do século XVIII da igreja de são Roque, em péssimas condições de conservação) e o Calvário representando Nossa Senhora e São João Evangelista, da Escola Flamenga, atribuído ao atelier de Oliver de Gand de inícios do século XVI, é uma escultura em madeira de carvalho, estofada, policromada e dourada com as seguintes dimensões: 1,6X0,32X0,25 m; 1,6X0,33X0,24 m. Provavelmente originária da antiga Igreja de São Roque ou do Convento de São Francisco do Funchal(14).

No Catálogo Ilustrado da Exposição de OURIVESARIA SACRA realizada no Convento de Santa Clara do Funchal em 1951 refere-se que foram expostos os seguintes objectos provenientes da Igreja de S. Roque: Cálice de prata dourada, altura - 22 cm, do séc. XVI; Cálice de prata, altura - 22 cm (sem imagem), do séc. XVII e Cruz Processional de prata, altura - 80 cm, do séc. XVII(15).

Anexos

Anexo 1

São Roque (Freguesia de). Os terrenos que ao presente formam esta freguesia suburbana do Funchal, faziam primitivamente parte da paróquia da Sé e pertenceram depois á freguesia de São Pedro, o que igualmente aconteceu com a freguesia de São Martinho, como já ficou dito noutro lugar deste volume. As duas paróquias desmembraram-se da de São Pedro no mesmo ano e tem a mesma data o diploma que as criou.

(?) Tirou esta freguesia o seu nome da pequena capela de São Roque que ali existia e onde se estabeleceu a sede da nova paróquia. A ermida foi construída pelos moradores do sítio, em ano anterior á criação da paróquia. O Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, fundado no mandado do Conselho da Fazenda do Funchal, de 19 de Maio de 1704, que determina seja dada de arrematação a construção da nova igreja e da sacristia pela importância de 795$000 réis, parece concluir que a igreja actual foi edificada naquele ano. Esta construção ou antes acrescentamento deu-se na capela que existia no sítio ainda hoje conhecido pelo nome de Igreja Paroquial, que julgamos ser o local da primitiva capela de São Roque. Parece que foi pouco solida essa construção, por isso que por 1790 abateu a igreja, ficando incapaz de ser aplicada ao serviço do culto. As funções religiosas passaram a ser exercidas numa pequena capela, cuja invocação ignoramos.

A igreja actual começou a ser edificada no princípio do século XIX, mas foi morosa a sua construção, tendo sido dadas por concluídas as respectivas obras por meados do mesmo século. No entretanto, foi servindo de igreja paroquial desde os anos de 1820.

Existem nesta freguesia as capelas de Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Alegria, Nossa Senhora do Rosário e Santana, e há muito que desapareceu Nossa Senhora da Esperança (?).

Os principais sítios desta paróquia são: Achada, Muro da Coelha, Conceição, Fundoa, Igreja Velha, Calhau, Igreja Nova, Alegria, Bugiaria, Lombo Segundo, Lombo de João Boieiro e Santana"(16).

Anexo 2

Titulo II. Capitulo VI.

D. Hieronymo Barreto VI. Bispo do Funchal

A famoza Cidade do Porto, que deu nome ao Reyno de Portugal, deu tambem o nacimento a este grande Prelado. Foi Irmão segundo de Fernão Nunes Senhor dos Coutos de Freyriz e Penegate/sogro que foi de D. Favique de Meneses, irmão do Conde de Cantanhede/ambos filhos de Gaspar Nunes Barreto senhor dos mesmos coutos/e de sua mulher Izabel Cardoza/cujos Irmãos illustraram a roupeta de Sancto Ignacio, e o habito de Santa Clara do Porto. Seguio D. Hieronimo as letras, e estudou os sagrados canones na Univercidade de Coimbra, onde se graduou com grandes creditos. Em Braga lhe administrou ordens o seu veneravel Arcebispo D. Fr. Bertholameu dos Martyres, de quem se diz que então lhe preconisara, havia de ser hum grande Prelado na Igreja de Deos.

Tais foram os seus principios, e taiz as suas letras e virtudes, que informado dellas El Rey D. Sebastião, o nomeou Bispo do Funchal no anno de 1573, achandose vaga aquella Cadeyra, pella renuncia de D. Fernando de/Tavora, sendo necessario, para sua santidade o confirmar nella, que dispensasse hum anno na idade que lhe faltava para os trinta. (?)

Em seu tempo se concedeu para a Fabrica da Se e das mais Igrejas Parrochiaes desta Diocesi, cento e outenta e dous mil reis anuaes como ja disemos na memoria do Bispo D. Fr. Jorge de Lemos; e parecendolhe conveniente extinguir a Parrochia de S. Pedro, que na Cidade tinha erecto o dito Prelado, criou em seu lugar duas, nos suburbios della, que forão a de S. Roque, e de S. Martinho, por um acento que fez em oito de Mayo de 1579"(17).

Anexo 3

"Temporaes

Cahiram no domingo ultimo, sobre esta cidade, grossas bategas de agua, acompanhadas d' uma trovoada, como ha muitos annos se não sentia em toda a ilha.

Na egreja de S. Roque, seria 1 hora da tarde, cahiu uma faísca que causou alguns estragos cujo repero se torna de grande urgencia, e cremos que n' esse sentido já o rev.º parocho da freguezia representou vocalmente ao rev.do bispo da diocese, e ao digno director das obras publicas que prometteu mandar proceder com a maxima urgencia aos trabalhos indispensaveis.

A faisca cahiu na torre da egreja, destruiu o mastro, que ahi se achava, perferou a parede destruindo parte da cimalha da mesma torre, e percorrendo parte da frontaria da egreja, rompeu a parede acima do côro, deslocando uma grande pedra que cahiu no adro, percorreu o côro despedaçando na sua passagem uma janella e fazendo graves destroços nas duas restantes, sahiu novamente e reentrando por um dos lados da porta principal foi á meza da confraria d' onde fez desapparecer um pedaço de madeira que guarnece as costas da mesma meza, sahiu pelo outro lado da porta principal, e veio de encontro a um mastro collocado a 30 metros de distancia do templo, fazendo-lhe alguns estragos e sumindo-se em lugar até hoje ignorado.

Grande foi o panico causado nos habitantes das proximidades da egreja, e no rev.º vigario e familia, que ás primeiras impressões julgaram ser o estrondo produzido na egreja fructo d' um tiro disparado por peça de artilheria!".

Anexo 4

"Auto da Eleyção do Padroeyro, e dos Sanctos Protectores da Cidade do Funchal.

Achase no Tom, 1. do Archivo da Camara a fol. 358.

Anno do nacimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1523, annos, em sabado 24, dias do mes de Janeyro, em a Ilha da Madeira, em a Sê da Cidade do Funchal, em o coro da dita Sê, pareserão hi o senhor capitão Simão Gonçalves da Camara e vereadores, e officiaes da Camara, e Cidadoes, e Misteres, e outro muito povo; e assi o senhor Adayão, e cabido com toda outra clerezia; e logo assi lhe foi aprezentado que aos onze dias do mes de Junho do anno de quinhentos e vinte hum, sendo a dita Cidade posta em muita tempestade, e tribulação da peste e fome, e outros muitos trabalhos, se acordou em Camara pellos officiaes que então erao S. João Correa Vereador, e Vicente Gonçalves, e Pedro da Luz Juizes; e o Bacharel João Devora, Procurador, e Misteres, e tomarão hum Rol de Sanctos. S. o nome de Jesuz Nosso senhor, e da Virgem Maria Nossa Senhora, e S. João Bautista, e os doze Apostulos, cada hum por seu nome; de que se fizerão 15 escriptos, em cada hum seu nome, e os lançaram em hua boceta, e por hum menino, por nome João de idade de sete annos, pondose todos primeiramente de joelhos em oração prometendo de fazer hua caza, a honra daquelle Sancto, que por sorte cahisse, e quis o Senhor Deos que por sorte sahio o bem aventurado Apostulo Santiago o Menor; a honra do qual logo no dito dia se festejou pella Cidade, e aos 21 de Julho, lhe começarão sua caza junto a Cidade; e o dito cabido com procissão solenne descalços, e o Mestre Escola Gonçallo Martins com o retabulo da Imagem do Bem aventurado Apostulo, e deu a primeira emchadada no cunhal da Capella da banda do Evangelho; a qual caza se edificou em hua terra que Antonio de Espinola deu para a dita caza; e porque a dita Cidade tornou algum tanto a pestar da dita peste, acordandosse elles do sobredito S. elle Senhor Capitão e officiaes da Camara, e Misteres, e Cidadaos, e povo, e Adayao, e Cabido, determinarão de logo fazerem acabar a dita caza, e de hoje em diante o tomarão por seu Protector, e Defensor, ante Nosso Senhor Jesus Christo, para que elle fosse intercessor ao Trino Deus pellos trabalhos deste povo, que a elle se encomendava; e o votaram assi, elle senhor capitão, como officiaes da Camara, e Misteres; e elle Senhor Adayão e Cabido S. o dito Senhor capitam em seu nome, e dos que delle descenderem e os officiaes da Camara em nome da dita Cidade; e o dito Senhor Adayão e Cabido, em nome de toda a clerezia da dita Se, e Cidade; e de fazerem em cada hum anno dos do mundo, lhe cantarem a festejarem a festa do, dito gloriozo Sancto, que o primeiro dia de Mayo; ao qual faram procissão Solenne, a qual sahira da Se da dita Cidade, solennemente, e hirão a dita caza do dito Bem aventurado Sancto, onde lhe faram vesporas solennes; e assi outro tanto se fara o proprio dia com Missa Solenne e prosissão; as quais procissoes se faram, como o proprio dia de Corpus Christi; e aos ditos Cidadaos lhe prove, de mandarem pintar o dito Sancto na Camara, e na bandeira, e selo da Cidade asi como se traz S. Vicente na bandeira da Cidade de Lisboa. E os sobre ditos votaram isto em as maos do dito Adayão, para todo cumprirem, por si, e por seus sucessores; e em testemunho e fe dello o asignarão aqui. Eu Antonio de Almeida Notario publico, e Escrivão que sou da Câmara em auzencia de Afonso Annes o escrevi. E assim lhe aprove de tomarem por seus Protectores Bem aventurados Sam Sebastiam, e Sam Roque, elhe fazerem a dita solenidade/Capitão da Ilha/Adayão/seguemse mais vinte e seis nomes, ou firmas"(18).

Notas

  1. Tombo da Sé.
  2. CARITA, Rui, História da Madeira (1566-1600), a Crise da 2.ª Metade do Séc. XVI, SRE, Funchal, 1991, p.328.
  3. SARMENTO, Tenente-Coronel Alberto Artur, Nossa Senhora da Esperança, Ilha da Madeira, Sala de Documentação Contemporânea, DRAC, p.15.
  4. SARMENTO, Tenente-Coronel Alberto Artur, doc. cit. p.16.
  5. SARMENTO, Tenente-Coronel Alberto Artur, doc. cit. p.19.
  6. "Notícia das Igrejas da Diocese do Funchal, que teem sido mandadas reconstruir, ou reparar, pelo Governador Civil do mesmo Districto, Jozé Silvestre ribeiro, e da despesa que taes trabalhos occasionaram até o dia 18 de Março de 1852" (MENEZES, Sérvulo Drummond de, Uma Época Administrativa da Madeira e Porto Santo, (desde 07-10-1846), Funchal, Typographia Nacional, 1849, vol III)
  7. Dicionário Lello Universal, Lello & Irmão Editores, Porto, 1993, p.786.
  8. "São Roque do Funchal: Na matriz, a imagem de S. Roque, seu orago, em tamanho natural, que, dentre as esculturas de Santos venerados nestas ilhas, é a mais perfeita, estética e religiosamente considerada, duma expressão mística e duma anatomia admiráveis" (PEREIRA, Eduardo C. N., Ilhas de Zargo, Câmara Municipal do Funchal, 1939, vol. II, p.810)
  9. CARITA, Rui, ob. cit. p.121
  10. "Nas dependências de alguns templos ainda se conservam exemplares de antigas caixas, umas de arrecadar e outras de receber esmolas, tendo as primeiras proporções de verdadeiras arcas e suas respectivas ferragens. Algumas destas também serviram para a recepção de esmolas , pois nelas se encontram fendas de mealheiro, ou para cofre de confrarias e da fábrica das igrejas. (…) Uma das maiores e mais valiosas que conhecemos é a existente numa dependência da igreja de S. Roque do Funchal, verdadeiro tipo da arca de três chaves, das quais eram detentores o pároco, o tesoureiro da respectiva confraria e o escrivão da Câmara Eclesiástica, entidades estas que compareciam anualmente à sua abertura" (PEREIRA, Eduardo C. N., ob. cit., p.643)
  11. NORONHA, Henrique Henriques de, Memórias Seculares e Eclesiásticas para a Composição da História da Diocese do Funchal na Ilha da Madeira, RGA, SRTC, CEHA, Funchal, 1996, Título IV, Capítulo VIII, p.180)
  12. Atribuído a Henrique Henriques de Noronha Memórias sobre a Criação e Aumento do Estado Eclesiástico na Ilha da Madeira, 1.º 14, fol. 132 n.º 11 (citação encontrada em inventário da DRAC)
  13. "NOSSA SENHORA DA ESTRELA. Atribuível às oficinas de Gaspar Vaz, Lisboa, finais do séc. XVI. Proveniente de uma antiga capela de São Roque, poderá ter sido da evocação de Nossa Senhora do perpétuo Socorro, ou da Salvação, cujas iconografias se sobrepoem. Igreja Matriz de São Roque, Funchal" (Carita, Rui, ob. cit. p.222)
  14. CLODE, Luísa, A Arte Flamenga na Ilha da Madeira in CEHA -
    http://www.madinfo.pt/organismos/ceha/canarias/hia23.html
  15. FERREIRA, Pe. Manuel Juvenal Pita e CLODE, Engº. Luiz Peter, (Património Artístico da Ilha da Madeira) Catálogo Ilustrado da Exposição de Ourivesaria Sacra (realizada no convento de Santa Clara do Funchal em 1951, Ed. da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, pp.32 e 171.
  16. SILVA, Pe. Fernando Augusto da e MENEZES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, SRTC, DRAC, 1984, vol. III, pp.278-279.
  17. NORONHA, Henrique Henriques de, Memórias Seculares e Eclesiásticas para a Composição da História da Diocese do Funchal na Ilha da Madeira, RGA, SRTC, CEHA, Funchal, 1996, p.96.
  18. NORONHA, Henrique Henriques de, ob. cit., p.96.

Bibliografia

ARM - Arquivo Regional da Madeira, Cópia do Registo da Antiga Provedoria da Real Fazenda.

CARITA, Rui, História da Madeira (1566-1600), a Crise da 2.ª Metade do Séc. XVI, SRE, Funchal, 1991.

CLODE, Luísa, A Arte Flamenga na Ilha da Madeira in CEHA -
http://www.madinfo.pt/organismos/ceha/canarias/hia23.html.

FERREIRA, Pe. Manuel Juvenal Pita e CLODE, Engº. Luiz Peter, (Património Artístico da Ilha da Madeira) Catálogo Ilustrado da Exposição de Ourivesaria Sacra (realizada no convento de Santa Clara do Funchal em 1951), Ed. da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal.

MENEZES, Sérvulo Drummond de, Uma Época Administrativa da Madeira e Porto Santo, (desde 07-10-1846), Funchal, Typographia Nacional, 1849.

NORONHA, Henrique Henriques de, Memórias Seculares e Eclesiásticas para a Composição da História da Diocese do Funchal na Ilha da Madeira, RGA, SRTC, CEHA, Funchal, 1996.

PEREIRA, Eduardo C. N., Ilhas de Zargo, Câmara Municipal do Funchal, 1939.

SILVA, Pe. Fernando Augusto da e MENEZES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, SRTC, DRAC, 1984, vol. III.