Historiografia Medieval

Os Primeiros Documentos

Os primeiros documentos em prosa são constituídos por textos não literários de carácter tabeliónico, burocrático e administrativo: testamentos, notícias de torto (queixas), partilhas, vendas, doações, legislação, etc.

Aparecem esporadicamente, alternando com documentos de natureza idêntica escritos em latim bárbaro, até ao reinado de D. Dinis, a partir do qual, e por determinação deste rei, todos os documentos emanados da Cúria Régia passam a ser escritos em vulgar, isto é, em português. Todos estes textos são, pois, destituídos de literariedade, isto é, não apresentam qualquer intenção artística. Interessam porém à história da língua e do País, permitindo muitas vezes reconstruir a atmosfera do tempo. O texto que se considera ser o mais antigo escrito em português é a famosa Notícia de Torto, do século XIII, minuta ou rascunho provavelmente destinado a ser depois vertido para a língua notarial - o latim bárbaro.

Os primeiros textos em prosa, que podemos considerar literários, constituem principalmente dois géneros distintos:

Ambas estas manifestações se devem, na sua quase totalidade, à actividade dos mosteiros, conside-rando-se como principais centros dessa elaboração literária os Mosteiros de Alcobaça, de Santa Cruz de Coimbra e de Lorvão. Por isso se designa genericamente esta prosa primitiva por prosa monástica, documentando uma visão místico-religiosa do mundo

Estes textos são geralmente anónimos, isto é, escritos e continuados por monges diferentes que encaram esse labor como uma obrigação inerente à sua missão de apostolado e pedagogia cristã. A actividade dos monges, sobretudo dos alcobacenses, dá início a uma tradição de literatura religiosa e mística que vai prolongar-se sem interrupção até ao século XVII.

1. Prosa Apologética e de Edificação

Estas obras são constituídas, principalmente, por traduções e adaptações, sobretudo do latim e do francês. São caracterizadas por uma grande ingenuidade de concepção, e remetem, muitas vezes, para um universo maravilhoso e lendário. O seu objectivo é desenvolver as virtudes cristãs, através da exortação e do exemplo. Têm, pois, carácter pragmático (isto é, utilitário), carácter esse, aliás, comum a toda a prosa do primeiro período medieval.

2. Prosa Histórica

Um dos géneros mais constantes e originais da literatura portuguesa é a Historiografia. O primeiro esforço de criação do género histórico é constituído por:

a) Os Cronicões constituem somente (pelo menos os primeiros) simples relatórios cronológicos dos reinados dos diferentes monarcas, com o objectivo utilitário de determinar quais os territórios por eles atribuídos aos nobres.

Noutros Cronicões, mais tardios, encontramos já indícios de uma evolução literária importante. Encerram, não raro, passos em que é já visível um esforço descritivo e a tendência para o patético e espectacular. A história confunde-se com a lenda e apresenta até relações com a novelística medieval. Apresentam uma visão fragmentária e uma interpretação maravilhosa da história.

b) Os Nobiliários ou Livros de Linhagens consistem, fundamentalmente, em registos genealógicos das principais famílias nobres, elaborados com objectivos bem definidos:

Os quatro Nobiliários existentes (1º. Livro Velho, 2º. Livro Velho, Nobiliário do Colégio dos Nobres e Nobiliário do Conde D. Pedro) apresentam um duplo interesse:

c) À imitação da Crónica General de España, ordenada por Afonso X, elaborou-se em português uma Crónica Geral (1344) por ordem de Afonso IV. Essa vasta obra, a primeira tentativa de uma visão panorâmica da História do Reino, foi depois traduzida para castelhano, levando às vezes à confusão com o texto castelhano, de que é, todavia, distinto e independente, quer quanto à estrutura, quer quanto às fontes utilizadas. É sem dúvida o mais importante documento de literatura portuguesa anterior a Fernão Lopes.

Os Romances de Cavalaria

Os Romances ou Novelas de Cavalaria constituem a manifestação literária em prosa de carácter mais gratuito, isto é, preenchendo principalmente o objectivo de deleitar o espírito correspondendo a uma necessidade de evasão e de distracção, através de uma literatura de ficção. As Novelas de Cavalaria são sobretudo códigos de conduta medieval e cavaleiresca. Assim, o juramento da investidura do cavaleiro pressupunha um ideal tendente a desenvolver o misticismo e o espírito cristão, o nacionalismo nascente, a fidelidade e a noção de honra, e, ao mesmo tempo, a firmar os vínculos da sociedade feudal.

O Juramento do Cavaleiro (adaptado)

  1. Acreditarás em todos os ensinamentos da Igreja e observarás os seus mandamentos.
  2. Protegerás a Igreja.
  3. Defenderás todos os fracos.
  4. Amarás o país em que nasceste.
  5. Não fugirás nunca diante do inimigo.
  6. Combaterás os infiéis.
  7. Cumprirás os teus deveres feudais, com a condição de que eles não sejam contra a lei divina.
  8. Nunca mentirás e serás fiel à tua palavra.
  9. Serás liberal e generoso.
  10. Serás sempre o campeão do direito e do bem contra a injustiça e o mal.

Costumam agrupar-se em ciclos, isto é, conjuntos de novelas que giram à volta do mesmo assunto e movimentam as mesmas personagens. São quatro os que tiveram reflexos na Literatura Portuguesa: Greco-Latino (ou Clássico), Carolíngio e Bretão; o Ciclo dos Amadises constitui, como veremos, um caso particular.

I. Ciclo Clássico ou Greco-Latino

O assunto gira principalmente à volta de dois momentos da Antiguidade Clássica - a guerra de Tróia e as conquistas de Alexandre - e além dos próprios textos que o documentam (fragmentos de Livros de Linhagens e Crónica Troiana), este ciclo teve escassa influência entre nós.

II. Ciclo Carolíngico

O assunto gira em torno, principalmente, das aventuras de Carlos Magno e dos Doze Pares de França, em luta contra os mouros. O mais famoso texto do Ciclo Carolíngio é a epopeia primitiva "Chanson de Roland" de que não se conhecem versões em português. No entanto o ciclo era conhecido em Portugal e alcançou grande expansão e popularidade.

III. Ciclo Bretão

Foi este ciclo que teve maior influência entre nós, quer pela florescência literária a que deu origem, quer pela influência social não só sobre a nossa Idade Média, mas sobre a mentalidade portuguesa até ao século XVI.

O primeiro texto que nos aparece em português é vertido directamente do francês, embora com certas adaptações que reflectem um ambiente social e temperamental tipicamente português: trata-se da Demanda do Santo Graal. Além desta novela, citaremos também José de Arimathia. Ambos constituem o corpo da matéria da Bretanha: contam-nos as aventuras fantásticas dos cavaleiros da Távola Redonda, reunidos em torno do rei Artur, o último rei dos Bretões. Em luta com os Saxões, buscam o Cálice da última Ceia (o Santo Graal) no qual tinham sido recolhidas as gotas do lado de Cristo e que havia sido trazido da Palestina por José de Arimateia, como preciosa relíquia. Escondido numa floresta misteriosa no castelo de Corberic, o Graal só se manifestaria totalmente ao cavaleiro puro e sem mácula, Galaaz, embora ocasionalmente surja também perante os outros cavaleiros, como sinal de graça. finalmente numa batalha contra os seus inimigos, o rei Artur desaparece, arrebatado por uma fada para uma ilha encantada, donde voltará um dia para libertar os bretões do jugo saxónico. Não podemos deixar de aproximar este epílogo do persistente mito sebastianista, que deve, pois, considerar-se uma reminis-cência do ciclo bretão.

O ambiente em que se desenrolam estas aventuras, denota o gosto pelo fantástico e pelo maravilhoso, reminescência de uma mitologia céltica, combinada com o maravilhoso cristão. As fadas, os monstros, os feiticeiros, as florestas cerradas e os castelos sombrios como cenário, são bem o ambiente original das novelas bretãs; mas tornaram-se ambiente e cenário convencional das aventuras cavaleirescas posteriores. Estas serão, por assim dizer, as características extrínsecas que definem o género.

IV. Ciclo dos Amadises

Este romance de cavalaria representa a nacionalização definitiva do Ciclo Bretão. O Amadis de Gaula dá origem ao Ciclo dos Amadises e a um florescimento do género até tarde (no séc. XVI o Palmeirim de Inglaterra). Filia-se, pois, na matéria da Bretanha, de que reproduz o ambiente, o cenário, o ideal de cavalaria, embora apresentado-no-los através de personagens novas, novos conceitos, novos ideais, de certo modo mais modernos e laicos. Esta novela de curiosa e complexa estrutura constitui, de facto, a codificação mais perfeita e completa do espírito da cavalaria. A primeira versão conhecida desta novela é da autoria do castelhano Garcia de Montalvo. Existem, no entanto, motivos para crer que esta obra teve a sua versão original - pelo menos em parte - em português, sendo seu autor um Lobeira (Vasco ou João).