Vitorino Nemésio
A Concha
A concha = habitação de um animal; a casa habitação do ser humano; a concha espaço fechado; a casa = espaço fechado; a forma circular da concha evoca a infância, a circularidade do ovo = útero.
O simbolismo da fecundidade, da vida, do ser feminino; a prosperidade; a morte, porque a prosperidade provém da morte do ocupante primitivo.
O sujeito poético sente-se um ser vácuo, desprotegido que com orgulho e inocência pretende apoderar-se do mundo exterior, circundante.
O sal é purificação e corrosão, vida e morte. Ninguém escapa à acção destruidora do sal tempo.
Os nichos albergam os santos e a forma é semelhante.
A concha impede-o de fixar o mundo circundante. Não o protege, nem dentro da concha ele "é"; as conchas vazias andam ao sabor das marés, são sonho e lixo.
O seu mundo interior, o inconsciente é opaco. Há a desolação da concha vazia, o carácter ilusório da enunciação.
A lareira não aquece; as salas são frias = ausência de protecção; vazio.
Não há casa nem concha, apenas vazio e abandono; o eu desprotegido do seu elemento primordial: a ilha.
Todo o exterior é apenas constituído por elementos "de memória", que lhe lembram a sua infância, o seu paraíso perdido.
A casa/concha assemelha-se pela forma e simbolismo e é destruída pelo sal do mar; a casa/pedra = metáfora da memória, que não cessa de evocar o passado.
Prece
Prece é uma oração, é uma atitude que implica a submissão de um Eu, que se considera inferior, a um Tu superior e transcendente;
Relação Eu/Tu;
Autocaracterização, marcadamente negativa e aviltante do Eu;
Oposição entre o sublime ("Meu Deus") e o abjecto "(?), dá-me lume a comer,/Que com pontas de fogo o podre se adormenta");
A procura do Sagrado e do Divino como forma de superar a "fraca alma";
As imagens da Paixão de Cristo ("(?) abre ainda mais o seu lado ardente,/Do Flanco de teu filho copiado", "Se é possível, desvia o fel do vaso") transpostas para a vivência da dor e do sofrimento do Eu.



