Sophia de Mello Breyner e Andresen
Paisagem
Levantamento dos elementos que constroem a paisagem descrita: aves; terra; cavalgadas do mar, mar largo; areia; céu, campo; árvores, resina, folhas; luz; vento; pinheirais; praias.
Constatação de que é possível agrupar os elementos referidos em quatro domínios englobantes: a água (cavalgadas do mar, mar largo, praias); o ar (aves, céu, vento); a terra (terra; areia; campo; árvores, resina, folhas; pinheirais; praias); a luz (luz).
Caracterização do aspecto sensual do texto, através do levantamento das referências sensoriais: olfactiva: "cheiro da terra", visual: "o céu azul, o campo verde, a terra escura", táctil: "a carne (?) elástica e dura", táctil e visual: "as gotas de sangue", "o peso (?) a cor de cada coisa", auditiva: "a força do mar largo", "o vento corre". Há uma relação física e intensa entre quem descreve, o eu poético, e o que é descrito. Embora não esteja explícito, é evidente que a Natureza e os seus elementos transmitem ao "eu" que os observa a força e a intensidade inerentes à sua essencialidade, e com os quais o "eu" se procura fundir. Prevalecem, sem dúvida, o mar/a água, facto a que não é alheio o conteúdo da última quadra do poema, toda ela centrada na "verdade e na força" da paisagem marítima.
Recursos estilísticos mais relevantes:
- Adjectivação: "O cheiro da terra era fundo e amargo".
- Enumeração: "Era o céu azul, o campo verde, a terra escura".
- Anáfora: "Eram? Eram?".
- Personificação: "Eram as mãos profundas do vento"; "Era a verdade e a força do mar largo,/Cuja voz, quando se quebra, sobe".
- Aliteração: "Era o livre e luminosos chamamento".
- Escolha cuidada do vocabulário e associação inusitada de palavras impregnadas de sensibilidade e de sensualidade.
Porque
Através da anáfora "Porque" enaltece-se e elogia-se aquele que não esconde as suas ideias, não tem medo, não se cala perante a injustiça, que se expõe, que não calcula os riscos quando se trata de defender a justiça e a verdade.
Denúncia da ditadura, dos que se curvam, vendem a dignidade em troca de uma vida tranquila, conseguida principalmente através de antíteses e da negação "não".
Data
(Poema dedicado à memória de Eustache Deschamps, poeta francês e patriota do século XIV que retratou a sociedade do seu tempo e combateu na Guerra dos Cem Anos, enquanto os monarcas traíam a pátria e entregavam o reino aos ingleses).
Título "Data" afirma um compromisso com o seu tempo, um grande empenhamento na luta pelo destino dos homens e um certo abandono do encantamento do universo recriado nos primeiros livros da poetisa.
Conotações políticas pejorativas conferida pelos nomes de forte carga negativa: incerteza, medo, traição, injustiça, vileza, negação, covardia, ira, mascarada, mentira, escravidão, coniventes sem cadastro, silêncio, mordaça, sangue sem rasto, ameaça.
Há uma relação causa/efeito no ritmo fortemente binário do texto:
| Solidão | Incerteza |
| Medo | Traição |
| Injustiça | Vileza |
| Mascarada | Mentira |
| Mordaça | Silêncio |
| Sangue | Ameaça |
A predominância dos nomes e a repetição anafórica "Tempo de" conferem ao texto uma grande tensão e intensificam a violência da mensagem.
Ressurgiremos
| Ainda "sob os muros de Cnossos/E em Delphos centro do mundo… na dura luz de Creta" |
Ali "onde as palavras/São o nome das coisas/E onde são claros e vivos os contornos/Na aguda luz de Creta" |
Ali "onde pedra estrela e tempo/São o reino do homem/… para olhar para a terra de frente/Na luz limpa de Creta" |
Conclusão: "Pois convém tornar claro o coração do homem/E erguer a negra exactidão da cruz/Na luz branca de Creta".
Promessa de ressurgimento, de renascimento na pureza, de retorno à pureza primitiva.
O Presente do Indicativo "são" tem conotação de permanência e intemporalidade.
A gradação DURA > AGUDA > LIMPA > BRANCA contrapõe a degradação que rodeia o sujeito poético à esperança de ressurgir.
A evocação do passado transforma-se em projecto de futuro.
A luz é símbolo de pureza, vida, recuperação de uma luz passada, eterna.
Praia
Descrição da praia por onde o sujeito poético passeia. A praia é o lugar de meditação e é importante para o equilíbrio emocional dele. Utiliza numerosas figuras de estilo que caracterizam com exactidão e dão a dimensão do esforço interior dele:
- Adjectivação expressiva: "oceanos frios, múltiplos navios, ondas? brancas, A praia é longa e lisa ao vento / Saturada, ondas enroladas;
- Ritmo binário: ao longo de todo o poema;
- Metáfora: "Caminho ao longo dos oceanos frios/Na luz oscilam múltiplos navios";
- Personificação: "As ondas desenrolam os seus braços/E brancas tombam de bruços";
- Comparação: "Das ondas enroladas como búzios"
- Sensações:
- Tacto: "frios", "A praia é longa e lisa" - símbolo de extensão, distância, quase sem fim;
- Olfacto: "maresia";
- Visão: "ao longo dos oceanos", "Na luz oscilam múltiplos navios", "As ondas desenrolam os seus braços/E brancas", "espaços";
- Audição: "As ondas desenrolam os seus braços? Tombam", "ao vento" - sugere vida e força, "o murmúrio/Das ondas enroladas como búzios" - sonoridade longa e distantemente repercutida.



