Miguel Torga
Desfecho
Sujeito lírico: combativo, ruidoso, aborrecido com a presença do " tu"; 0 "tu": omnipresente, importuno e silencioso.
Armas do "eu": a palavra; armas do "tu": o silêncio.
Obstinação de ambos; o "eu" acaba por seguir o método do "tu": o silêncio.
Divisão em partes:
- 1.ª parte: as duas estrofes;
- 2.ª parte: a 3. estrofe;
- 3.ª parte: a última estrofe.
Indicação dos contendores em situação de luta; os instrumentos de luta; a conclusão. "Não"; "E"; "Mas".
Aliteração do fonema /t/ ao longo do texto: sugestão de intensidade da luta; aliteração do fonema /s/ no verso 15: sugestão da agressão do silêncio; aliteração do fonema /m/ nos versos 16-17 e 19: sugestão, respectivamente, de amargura da impotência do "eu" para vencer o "tu, e a frustração que de ambos se apodera. Os sucessivos transportes nas 1ª. e 2ª. estrofes: ritmo vivo. A tonalidade nasal: tristeza da impossibilidade de vitória. Os adjectivos revelam a atitude do "tu" e o malogro de ambos.
Intransigência: obstinados, teimosia; dureza: combater, lutei; negatividade: negar-te, mudos, malogrados…
Metáforas: "gastei-as" (as palavras não se gastam); "o chão da caminhada" = todos os locais; "Soltei a voz" = gritei; "arma" = instrumento do combate.
Imagens: "Fechado num ouriço de "recusas" = recusa total de ceder; "o tempo moeu na sua mó/O joio amargo" = o tempo destruiu as suas palavras…
Longa luta entre o imanente e o transcendente com o desenlace do silêncio. José Régio sofreu por não compreender o mistério insondável de Deus; Miguei Torga vai por outro caminho: recusa-se a aceitar o Deus tradicional, numa atitude de rebeldia que caracteriza toda a sua obra literária.
S. Leonardo de Galafura
Num barco rabelo em viagem através do Douro, donde contempla um espaço de rara beleza o santo viaja para a eternidade mas ama os valores terrestres.
O poema pode ser dividido em três partes, correspondentes a cada estrofe: o santo navega devagar em direcção à eternidade; razão por que vai devagar; retorno à imagem inicial da viagem lenta em direcção à eternidade.
Estrofes irregulares (11, 9 e 7 versos); métrica irregular (versos de 2 a 22 sílabas); versos soltos e rimados. Todos estes factores se conjugam para dar uma ideia da irregularidade do espaço observado.
Alternância de sons abertos e de sons fechados = alegria pelas coisas terrestres e tristeza por ter de as deixar; aliterações: /p/= viagem, /m/ = apelo à terra…
Presente do indicativo no seu aspecto durativo = permanência, lento desenrolar da viagem; bem como a conjugação perifrástica.
Coordenação, processo dominante (só há uma oração relativa "que gasta no caminho") o processo da viagem, lento e sequente.
Conjunto das metáforas destacadas = a imagem do santo navegando em direcção ao céu, sabendo já que lá não encontrará as belezas terrenas.
Apego à terra: todas as expressões intensificam esse apego numa manifestação de telurismo.
Orfeu Rebelde
Orfeu mitológico rebeldia por causa do amor; Orfeu torguiano rebeldia por causa dos seus limites e dos limites humanos, sobretudo a impossibilidade de evitar a morte. Aproveitamento e subversão do mito = o poeta é o próprio Orfeu, automitifica-se. Outros poetas = rouxinóis = românticos.
O sujeito lírico não pretende exprimir emoções mas um grito de revolta; poesia romântica versus poesia de revolta: "Canto como um possesso", "desafio", "moinho cruel", "gritos", "nortadas", "violências"…
Fuga do esquecimento, da morte, da passagem do tempo, da poesia sentimental. A poesia é a única arma que pode vencer a morte.
Poesia como arma de combate; poesia de desespero humanista.
Rebelde, o sujeito lírico pretende gravar, através do canto (poesia), a fúria de cada momento, afirmar a sua rebeldia face à inevitabilidade da morte.
Divisão em partes: três momentos correspondentes às três estrofes: Orfeu rebelde, os outros e o eu, bicho instintivo.
Aliteração do fonema /c/ ao longo do poema conjugada com a aliteração do fonema /t/ = luta e rebeldia; os vários transportes = ritmo agitado; sugestão de luta; domínio do verso decassílabo = luta sem tréguas.
Domínio do presente = a permanência da luta;
- o presente do conjuntivo = desdém.
- o imperfeito do conjuntivo = hipótese.
A personificação casa-se com as metáforas e as imagens:
- Comparação: "como um possesso" - decisão completa; "gritos como há nortadas" = violência da revolta;
- Metáforas e imagens: "casca do tempo" = duração; "rouxinóis" = românticos; "pedras conjugadas" = união de todas as forças; "moinho cruel" = sofrimento permanente.
Maceração
"Pisa", "insatisfeita", "frutos acres", "Falta-lhes gênio", "Cospe", "Corta-me"… - O poeta não gosta da sua poesia porque esta não atinge a perfeição que julga dever ter.
Linguagem apelativa: verbos no imperativo.
Divisão em três partes que correspondem às três estrofes: pedido à Musa para que destrua os seus versos (plano geral); indicação das imperfeições (plano particular); retorno ao sentido inicial (plano geral).
O poema contém uma sequência de apelos.
De forma geral, os adjectivos e os nomes apontam a insatisfação do poeta:
- "frutos acres" = rudeza dos versos;
- "Falta-lhes o génio, o sol que amadurece" = versos vulgares;
- "estas sílabas contadas, vestígios digitais de evadido" = poesia moderna, irregular, transgressão da lírica tradicional, e artificialismo;
- "corta-me as asas que me deste" = o poeta não cumpre a missão para que foi incumbido e por isso não é digno dela.
Torga não é um poeta romântico, é um poeta moderno e comprometido; por isso, Musa é no contexto do poema sinónimo de perfeição.



