Florbela Espanca

Ser Poeta

As três primeiras estrofes definem o poeta num sentido geral, qualquer poeta:

A última estrofe define já a própria poetisa, num sentido particular: para ela, ser poeta, é amar assim como ela ama, é fundir-se com o ser amado. "E é amar-te, assim, perdidamente…/É seres alma, e sangue, e vida em mim/E dizê-lo cantando a toda a gente!"

Amar

O advérbio perdidamente define a dimensão desejada do amor: sem limites. Amar alguém é exclusividade, limite. Logo, a contradição é só aparente.

O sujeito lírico expressa a sua vontade de amar sem limites, sem normas:

Ritmo rápido nas quadras, acompanhando a expressão ardente do estado de espírito; ritmo mais lento nos tercetos, acompanhando a linha reflexiva dos mesmos. Nas quadras: repetições de palavras, exclamações e interrogações sucessivas, versos sincopados, cesurados; nos tercetos, frase completas e domínio da subordinação.

A Primavera é metáfora da alegria de viver, de amar.

Verso 13 = desejo de que a sua vida seja uma torrente de luz.

Verso 14 = amando, dando-se, encontra-se; amar é sempre "perder" algo, que equivale a ganhar algo.

Amor vulcânico, incontrolável, sem limites, sem normas.

Hora que Passa

Abandonada, só, cão sem dono, Job, Judeu Errante, alma sem amor…: o sujeito lírico vive mergulhado em profunda tristeza, desilusão e solidão.

Perdida neste mundo; totalmente abandonada; perdida e errante como os Judeus durante longos séculos sem pátria.

Só/Job; escura/Desventura. Em ambos os casos, aproximação, pela rima, de palavras de sentido semelhante. Tonalidade negativa, nasal, fechada, algo declamatória = temática triste. Adjectivação muito negativa e repetitiva: triste, abandonada e só, triste, dolorida e escura. Cada adjectivo reforça o sentido negativo do anterior.

Das inúmeras metáforas, seleccionámos a do último verso: a vida é um fiozinho de água triste que corre = a vida faz sofrer; visão pessimista da vida.

Falta de amor, de felicidade; não realização dos projectos e sonhos.

Hora que passa = vida que passa e não deixa felicidade; vive-se o tempo sem viver a vida.

Árvores do Alentejo

1.ª parte do poema: as duas quadras que caracterizam a planície alentejana:

2.ª parte do poema: primeiro terceto: compara-se às árvores, personifica-as ao chamá-las e ao atribuir-lhes uma alma que como a dela também implora remédio para as suas mágoas.

3.ª parte do poema: último terceto: apela ás árvores para que não chorem, também ela anda a pedir a Deus uma gota de água para matar a sede da sua alma magoada, para mitigar a sua mágoa.