Eugénio de Andrade
Urgentemente
1.ª estrofe mais curta expressa a urgência de modificar o mundo, de evitar que ele se afunde na dor, na violência.
Elementos capazes de recriar o amor: um barco no mar; inventar alegria; multiplicar os beijos e as searas; descobrir rosas e risos e manhãs claras; permanecer.
Conceitos que se opõem ao amor: ódio; solidão; crueldade; lamentos; espadas; silêncio; luz impura.
Significado de cada um dos elementos dessa oposição: ódio = ausência de amor; solidão = dor, tristeza; crueldade = maldade; lamentos = dor; espadas = morte; silêncio = dor, morte; luz impura = mal.
Significado dos verbos inventar e permanecer: criar e constância.
Anáfora em que se apoia a estrutura do poema: É urgente.
Predominância dos nomes: amor, barco, mar, palavras, ódio, solidão, crueldade, lamentos, espadas, alegria, beijos, searas, rosas, rios, manhãs, ombros e luz. Transmitem a urgência de modificar o mundo, evitar que o negativismo impere, o mal domine, semear o bom e o bem.
As Palavras Interditas
Amo-te (v.11), meu amor (v.14), apaixonadamente (v.21); palavras interditas (v.13); Dói-me esta água, este ar que se respira (v.17), um horizonte de cidades bombardeadas (v.24).
A noite da cidade, da cinza, da interdição = noite da opressão; a noite anterior às opressões, aos bombardeamentos, à censura = noite da inocência.
Recupera a oscilação semântica de navios, hospitais, cinza, ou a realidade de uma separação.
A relação entre a existência e a destruição, entre o homem e a ausência do homem, entre a plenitude e a escassez.
Os navios são maiores do que o rosto no plano da realidade; o rosto é maior do que os navios no plano da afectividade. Navios - rosto, rosto - navios. Rosto igual a navios (a omissão do sujeito do verbo flutuar permite a sua ligação quer a rostos quer a navios); cidades igual a mar (flutuam nas cidades).
O vocábulo "encostado" pode ter um duplo sentido: ternura e clandestinidade; a expressão "Sem nenhum destino" pode evidenciar a desvalorização do tempo de guerra. Assim, os navios, flutuando nas cidades, podem permitir a passagem de passageiros clandestinos e de mensagens proibidas.
A areia branca pode designar metaforicamente a origem, a pureza, a transparência, o silêncio a reconstituir com a destruição do ruído perturbador das cidades bombardeadas.
A criança, símbolo da origem, da transparência, não pode olhar para o mar = cidades bombardeadas; também não pode olhar para terra = local de destruição. Ela é a harmonia num espaço de desarmonia.
Cidade - mar, rio - areia, praia - mar (relação de contiguidade).
"Não há dúvida", "É preciso partir, é preciso ficar": é a confusão nas ordens opostas, é a agitação, a discórdia que parece proceder do verbo "anoitece", repetido, que entra em oposição com "onde o tempo começa", deixando transparecer que o que medeia estes dois tempos é exactamente o conflito.
Relação difícil por causa da guerra, da censura e da opressão. 0 "eu", que diz "Amo-te", é o sujeito da enunciação; o "tu" é um nome que vem em cada palavra enunciada pelo enunciador. 0 amor é a força que faz pronunciar o "teu nome".
Todos os sentidos do poema gravitam à volta de privação e plenitude. A relação amorosa "eu-tu" move-se num espaço de destruição e de conflito. Tal facto acentua as perspectivas de felicidade ("as primeiras luzes das colinas") que o amor abre, logo ensombradas pelas "ondas de sombra" e pelo ambiente de guerra. Mas o amor é subversivo, e por isso, mesmo assim, o amador envia palavras ao objecto do seu amor.
Palavras de sentido negativo; caracterização do tempo e do espaço como escassez, vazio, opressão.
Embora proibidas (interditas) as palavras são ditas e, como tal, subversivas. À destruição feita pelos bombardeamentos corresponde o halo de amor dessas palavras que unificam os que as levam e as ouvem - os que partem e os que regressam.
As Palavras
Ênfase posta no primeiro membro da comparação, que tem o valor de um verso; nela assenta a expectativa criada pelo primeiro verso.
As palavras (são como) um punhal agressividade, morte, sofrimento; As palavras (são como) um incêndio = destruição, purificação; As palavras (são como) orvalho = suavidade, esperança, acalmia.
Positividade versus negatividade (as palavras contêm contradições).
As palavras têm uma história secular: atravessam os tempos, recebem novos significados, evoluem, carregam os segredos da história dos homens e acompanham os seres falantes como instrumento indispensável de comunicação; trazem consigo um saber muito antigo.
Viagem (insegurança, quer das palavras, quer dos barcos; as palavras agitam as pessoas; os barcos, as águas); Amor (ninguém fica indiferente às palavras nem as pessoas aos beijos).
Destaque para as qualidades. Na sequência de "Inseguras navegam", o poeta caracteriza-as como desamparadas = ao alcance de todos, inocentes = de per si não contêm qualquer mal, este advém do uso e do abuso, leves = sem a carga conotativa que alcançam no texto.
As palavras alcançam sentido quando colocadas num texto, que é um tecido, uma teia, onde se cruzam os vários sentidos. Luz no texto, noite na ausência do texto.
São os leitores que vão abrir as conchas, que são as palavras (cofres cheios de sentidos). A interrogação apela para a releitura das palavras.



