Alberto Caeiro: O Guardador de Rebanhos X

"Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"
"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?"
"Muita coisa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras coisas
De memórias e de saudades
E de coisas que nunca foram".
"Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti".

Alberto Caeiro

O texto apresenta um diálogo entre o guardador de rebanhos e um interlocutor. Um e outro manifestam o seu ponto de vista acerca do vento que passa, que é o mesmo que dizer acerca de tudo o que passa, das coisas que passam (o vento, como um dos elementos da natureza que maior mobilidade possuem).

O guardador de rebanhos encontra-se à beira da estrada (v.2). Para ele, o vento é apenas o vento, passa como passou antes e passará depois (vv.5, 6) e nada mais. O interlocutor, que é quem coloca a questão ao guardador de rebanhos, responde que para si o vento é "muito mais do que isso" (v.8); "fala-lhe de muitas outras coisas" (v.9), "de memórias e de saudades/E de coisas que nunca foram" (vv.10-11). Para o guardador de rebanhos, o interlocutor nunca ouviu passar o vento, dentro dele está a mentira - já que ele não vê nas coisas as próprias coisas, mas vai muito mais além.

A sinceridade estará em verem-se as coisas tais como são, na sua naturalidade, sem se extrapolarem delas quaisquer segundos sentidos.

Pelas posições que um e outro assumem, poderemos ver no guardador de rebanhos o mestre e no seu interlocutor o discípulo. O discípulo que interroga o mestre e o mestre que instrui o discípulo.

Como é regra em Caeiro, estamos, neste texto, em presença do verso livre e branco, do tom discursivo próprio da linguagem coloquial, da estrutura livre (aqui um terceto e três quadras), do vocabulário simples, de repetições acentuadas, de aliterações suaves (manifestando a tendência para as coisas simples, próprias do pastor), da personificação dos elementos da natureza (no presente caso, do vento, que é colocado em relevo como participante de destaque, que tudo abrange, do mundo natural em que o pastor vive).