Fernando Pessoa: Meu Coração é um Pórtico Partido
| Meu coração é um pórtico partido Dando excessivamente sobre o mar. Vejo em minha alma as velas vãs passar E cada vela passa num sentido. Um soslaio de sombras e ruído Na transparente solidão do ar Evoca estrelas sobre a noite estar Em afastados céus o pórtico ido… E em palmares de Antilhas entrevistas Através de, com mãos eis apartados Os sonhos, cortinados de ametistas, Imperfeito o sabor de compensando O grande espaço entre os troféus alçados Ao centro do triunfo em ruído e bando… Fernando Pessoa |
Na 1.ª estrofe deduz-se:
- Que o poeta se encontra dobrado sobre si mesmo "Vejo em minha alma", considerando a sua realidade interior, a sua própria alma e nela diz que vê velas que passam num sentido "cada vela passa num sentido";
- Que o sentido da visão é, de entre todos, o que exprime maior distanciamento na relação eu/objectos: "vejo";
- Que o espaço real é constituído por elementos pertencentes à alma do poeta, espirituais "Vejo em minha alma";
- Que as velas são "vãs", não têm conteúdo, são velas sem barcos, e passam num só sentido, sem regresso. O poeta insiste em assinalar que elas passam: "passar" e "passa";
- Que o sujeito lírico está mergulhado numa dor enorme, incomensurável que o aflige porque as velas significam uma comunicação que não se estabelece, possivelmente entre o sujeito lírico e o mundo;
- Que se o sujeito lírico vê velas na sua alma é porque ela é um mar, com qualquer coisa de insondável, de misterioso, de incompreendido, de inexplicável, de ilimitado, de inabarcável;
- Que nesse mar que é a sua alma há um pórtico (o coração) que dá "excessivamente" sobre ele. Um pórtico é uma entrada monumental de edifício nobre - de um palácio, de um templo - ou de um porto de abrigo. Aplicado ao coração, será o lugar das trocas afectivas, íntimas, espirituais; mas o pórtico é "partido", logo deteriorado, limitado nas suas atribuições, já não exercendo a função de estabelecimento de comunicação;
- Que o poeta é assim um carente afectivo (através da metáfora do 1º. verso) que procura estabelecer contactos com o mundo exterior, mas debalde. O seu coração está cheio de intenções grandiosas (é um pórtico) mas que falharam (partido); mesmo que o pórtico não estivesse partido não serviria porque dá "excessivamente sobre o mar", portanto sujeito a tempestades e às marés.
Na 2ª. estrofe deduz-se:
- Que o ar que se respira exteriormente ao poeta também assume proporções de negatividade "soslaio de sombras e ruído" e "transparente solidão". Essas realidades não são algo com que se contacte abertamente, de um modo claro, mas oblíquo, obscuro, de través "Um soslaio";
- Que o poeta não pode ultrapassar a negatividade em que se encontra mergulhado porque o soslaio de sombras e ruídos encontra-se no ar e representa a solicitação material de glória, fama, honra, em que o poeta suporia encontrar solução para a sua profunda mágoa;
- Que o poeta embora mergulhado na negatividade nunca deixa de lutar, de procurar daí a evocação "Evoca estrelas sobre a noite estar/Em afastados céus o pórtico ido…".
Na 3ª. estrofe deduz-se:
- Que a evocação do poeta o levou a uma paisagem num mundo de sonho "E em palmares de Antilhas entrevistas", mal vistas divisadas, vistas imperfeitamente;
- Que os palmares estão conotados com serenidade, exotismo, confiança, conforto, abrigo, paz e que, além disso, transmitem a ideia de ilhas como as ilhas prometidas, afortunadas, mas vagas, imprecisas;
- Que é nesse espaço de irrealidade que ficam os "sonhos, cortinados de ametistas" - e que a metáfora é usada para dar aos sonhos o papel de divisórios e ilusórios - sendo a ametista uma pedra preciosa de cor roxa - entre uma realidade e outra realidade, ambas negativas;
- Que as mãos que apartam os sonhos são o elemento externo, realista, de agir, que decifram a verdade e a fazem ocupar os seus próprios limites.
Na 4ª. estrofe deduz-se:
- Que a realidade se impõe tal qual é depois de apartados os sonhos e a angústia permanece na sua alma: "Imperfeito o sabor de compensando/O grande espaço entre os troféus alçados/Ao centro do triunfo em ruído e bando…" porque a fama e a glória resultam sempre num sabor imperfeito, nada fica resolvido, a realidade negativa permanece.
Conclui-se que a desarticulação sintáctica presente nas duas últimas estrofes do poema e o afastamento nítido entre as duas quadras e os dois tercetos manifestam a angústia que domina a alma do poeta e que nela tudo fica cada vez mais insolível, mais distante, mais desconexo e mais perdido.



