Cantigas de Escárnio e Maldizer
"Vej' eu as gentes andar revolvendo" de Pero Meogo (CV 320/CBN 374/CA 435)
| Vej' eu as gentes andar revolvendo e mudando aginh' os corações do que põe entre sy as nações; e já m'eu aquesto vou aprendendo e ora cedo mais aprenderei: a quen poser preito, mentir-lho-ei, e assi irei melhor guarecendo. Cá vej' eu ir melhor ao mentireiro qu'ao que diz verdade ao seu amigo; e por aquesto o jur'e o digo, que já mais nunca seja verdadeiro, mais mentirei e firmarei log' al: a quem quero (i) bene, querrei-lhe mal, e assi guarrei como cavaleiro. Pois que me prez nen mha onrra non crece, porque me quígi teer à verdade vede-lo que farei, par car(i)dade pois que vej'o o que m'assi acaece mentirei ao amigo e ao senhor, e poiará meu prez e meu valor con mentira, pois con verdade dece. |
Tema: o desconcerto do mundo ou o mundo às avessas. Assunto: a(s) injustiça(s) deste mundo (os desonestos são premiados e os honestos castigados); o sujeito poético manifesta a firme intenção de mudar de atitude como se pode comprovar: "a quen puser preito, mentir-lho-ei", "mais mentirei e firmarei logo al", "querrei-lhe mal", "mentirei ao amigo e ao senhor". Forma: cantiga de escárnio porque encerra uma crítica que não identifica os atingidos. Valor documental: reside no facto de a cantiga fornecer informações sobre a sociedade da Idade Média: ambiente social, moral e cultural. |
"O que foi passar a serra" de Afonso X (CBN 494/CV 77)
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O que foi passar a serra e nom quis servir a terra é ora, entrant'a guerra, que faroneja? Pois el agora tam muito erra, maldito seja! O que levou os dinheiros é por nom ir nos primeiros que faroneja? Pois que vem cõnos prestumeiros maldito seja! O que filhou gram soldada e nunca fez cavalgada, é por nom ir a Graada que faroneja? Se é ric'omem ou á mesnada, maldito seja! O que meteu na taleiga pouc'aver e muita meiga, é por nom entrar na Veiga que faroneja? Pois chus mol (e) é que manteiga. maldito seja! |
Tema: sátira política, decadência, traição. Caracterização do objecto: covarde, ladrão, falta de honra. Refrão: conteúdo - oportunismo do cavaleiro/maldição do rei; pontuação - interrogação e exclamação; ritmo - versos curtos, intercalado com verso longo. Forma: paralelismo anafórico que reforça a caracterização; estrofes singulares e monórrimas. |
"Roi Queimado morreu com amor" de Pero Garcia Burgalês (CV 988/CBN 1380)
| Roi Queimado morreu com amor em seus cantares, par Santa Maria, por uma dona que gran bem queria; e, por se meter por mais trobador, por que lh' ela non quiso bem fazer, feze-s' el em seus cantares morrer, mais resurgiu depois, ao tercer dia. Este fez ele por uma sa senhor que quer gram bem; e mais vos ém diria: por que cuida que faz i mestria, enos cantares que fez, á sabor de morrer i e des i d' ar viver; esto faz el, que x' o pode fazer, mais outr' omem per rem nono faria. e nom á já de sa morte pavor, se nom, sa morte mais la temeria, mais sabe bem, per sa sabedoria, que viverá, des quando morto for; e faz-s' em seu cantar morte prender, des i ar vive: vedes que poder que lhi Deus deu, - mais queno cuidaria! E se mi Deus a mi desse poder qual oj' el á, pois morrer, de viver, ja mais morte nunca eu temeria. |
Tema: cantiga de Escárnio; roi Queimado é atacado como trovador de pouca qualidade, e o amor cortês é ridicularizado. Divisão em partes: 1ª. parte: 1ª. estrofe - roi Queimado para mostrar ser melhor trovador do que os outros e amar mais a sua dama morreu de amor por ela; 2ª. parte: 2ª. estrofe - ele fez isso porque acha que assim mostra mais engenho do que os outros trovadores; 3ª. parte: 3ª. estrofe - ele é como que um eleito de Deus, pois morreu e ressuscitou; o trovador também se lhe fosse dado esse poder não temeria a morte e ressuscitaria como ele; em todo o poema há ironia e na terceira parte ridiculariza-se o amor cortês. Forma: cantiga de mestria com três estrofes (sétimas) e finda (terceto) que retoma a rima dos três últimos versos das estrofes (coblas) abbabbb, rima emparelhada e interpolada, toante e consoante, pobre e rica. Sirventês literário: um trovador ridiculariza outro por se querer fazer melhor, há também a inveja a funcionar. |
"Meu senhor arcebispo, and' eu escomungado," de Diego Pezelho (BV 1124/CBN 1959)
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Meu senhor arcebispo, and' eu escomungado, porque fiz lealdade; enganou-m'i o pecado. Soltade m', ai, senhor, e jurarei, mandado, que seja traedor. Se traiçon fezesse, nunca vo-la diria; mais, pois fiz lealdade, vel por Santa Maria, Soltade m', ai, senhor, e jurarei, mandado, que seja traedor. Per mha malaventura tive um castelo em Sousa e dei-o a seu don' e tenho que fiz gran cousa: Soltade m', ai, senhor, e jurarei, mandado, que seja traedor. Per meus negros pecados, tive um castelo forte e dei-o a seu don', e ei medo da morte. Soltade m', ai, senhor, e jurarei, mandado, que seja traedor. |
Tema: sátira popular contra os senhores que faltaram ao juramento de fidelidade a D. Sancho II e entregaram os castelos a D. Afonso III. Assunto: excomunhão por causa da entrega dos castelos. Razão do pedido e sua coerência: pede que lhe seja levantada a excomunhão pois se limitou a ser fiel ao seu rei, foi leal mas como os bispos foram traidores excomungaram-no pela sua lealdade. Caracterização do protagonista: caracteriza-se como traidor, prefere ser considerado como tal a ser excomungado e morrer em pecado; ao fazer este acto de contrição está, no fundo, a criticar o arcebispo (o clero) pela sua traição. Forma: cantiga de refrão aa CC; dísticos, refrão em dístico. Valor documental: documenta as lutas políticas, a traição dos alcaides, a corrupção do poder eclesiástico e da fidalguia militar. Classificação da sátira: maldizer - a pessoa satirizada é nomeada; escárnio - a crítica é velada com humor - ironia. |
"Ai, dona fea, foste-vos queixar" de Joam Garcia de Guilhade (CBN 1485/CV 1097)
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Ai, dona fea, foste-vos queixar que vos nunca louvo em meu cantar; mais ora quero fazer um cantar em que vos loarei toda via; e vedes como vos quero loar; dona fea, velha e sandia! dona fea, se Deus mi pardom, pois avedes atam gram coraçom que vos eu loe, em esta razom vos quero ja loar toda via; e vedes qual sera a loaçom: dona fea, velha e sandia! Dona fea, nunca vos eu loei em meu trobar, pero muito trobei; mais ora ja um bom cantar farei; em que vos loarei toda via; e direi-vos como vos loarei: dona fea, velha e sandia! |
Tema: paródia de louvor da dama, característico das cantigas de amor. Assunto: a dama queixava-se de nunca ser louvada pelo trovador, ele, ao saber disso, decide fazer-lhe um cantar mas que a ridiculariza em vez de louvar. Recursos estilísticos: apóstrofe: "D. Fea"; hipérbole: "mais ora quero fazer um cantar/em que vos loarei toda via"; o refrão com uma gradação ternária e um ritmo ascendente "dona fea, velha e sandia!"; termina cada uma das estrofes, insultando a dama, gritando-lhe, como num coro trágico, como num eco que nunca se calará. Forma: paralelismo semântico (4º. e 5º. versos de cada estrofe) e estrutural (4º. verso e refrão); cantiga de refrão, AAABAC, quintilhas c/ refrão monóstico; cantiga de escárnio; Sirventês pessoal. |



