Camilo Pessanha: Poesia
Chorai arcadas do violoncelo
A música do violoncelo provoca um estado de alma ansioso, um sentimento de misteriosa tristeza. Mas este sentimento não é dado directamente; é apenas sugerido por uma série de imagens e associações. O poeta não nos afirma que fica triste, ansioso, inquieto, ao ouvir o violoncelo. Mas logo a apóstrofe "chorai arcadas" nos revela o carácter triste da música. O poema assenta, pois, numa intuição associativa que liga o som grave do violoncelo ao sentimento de dor e de mistério.
"Arcadas" designa a corrida do arco sobre as cordas e evoca também o sentido de arcarias. "Arcadas", por associação trouxe à imagem "pontes" que também são "arcadas". A música evoca, pois, no seu gemer contínuo, um curso de água. A ligação ondulante dos versos das duas primeiras estâncias evocam formalmente um curso de água.
Os adjectivos "convulsionadas" e "aladas" vêm dar a "pontes" a sugestão do arco que voa e provoca o vibrar das cordas. "De pesadelo" vem acentuar o movimento febril e ansioso que já tinham começado a esboçar os adjectivos "convulsionadas"e "aladas".
Na 2ª. estancia, já se fala dos "arcos" das "pontes". Note-se a analogia e contínua associação de palavras e conceitos: tal como o arco sobre as cordas, também as pontes são "aladas" e os seus arcos "esvoaçam", até que a sensação do rio corrente nos aparece mais clara: "Por baixo passam,/Se despedaçam,/No rio, os barcos."
Acentua-se agora mais a impressão da tristeza. "Chorai arcadas" repete-se, intensificado, em "fundos soluçam". Não só o sentido do verbo é mais forte e os timbres mais escuros, mas também o modo do verbo se modificou acentuando agora a realidade presente, avassaladora do som. Há a impressão de que a noite paira na poesia: já se não vêm arcadas brancas na ponte, nem barcos passando; ficou apenas o rio agora transformado em caudal.É impossível uma localização fixa no espaço e no tempo; as correlações e analogias produzem apenas a inexorável sensação do fluir. As "arcadas" foram primeiro do violoncelo, depois arcos de pontes e agora são de novo o correr do arco sobre as cordas donde brotam caudais de música triste ("choro").
A poesia carrega-se mais de amargura: "Que ruínas: (ouçam)/Se se debruçam,/Que sorvedouro".
As imagens vão-se alterando ao sabor do movimento do poema: as "pontes convulsionadas", os "barcos despadaçados", repetem-se noutras imagens, ilustrando melhor a impressão do estalar do coração na visão das "ruínas". Uma sensação de distância (profundidade) engrandece a ideia de "caudal" e enquadra-se no sentido profundo de todo o poema.
Subitamente, o movimento parece afouxar. A frases perdem o verbo (acção) e afigura-se-nos que os arcos deixaram de correr sobre as cordas, que a música vai desaparecendo…
"Trémulos astros" é uma imagem nova, uma sugestão de luz, que surgiu por contraste com o tom escuro da estância precedente e com as "solidões lacustres". Agora já não é um caudal que passa, são lagos que alastram, ermos, escuros… As ruínas arrastadas no caudal vieram dar ao lago escuro: "lemes e mastros", restos de barcos despedaçados. Dir-se-ia que os violoncelos evocam no nosso espírito as quilhas, as cordas, os cabos dos navios…
A ideia de ruína intensifica-se ainda. "E os alabastros/Dos balaústres!/Urnas quebradas/Blocos de gelo…" tudo isto nos sugere a ideia de brancura, de fragmentação de coisas brancas, a ideia de uma acrópole destruída, E, por cima deste cemitério imenso e solitário, o poeta gostaria de ouvir uma música apropriada, saída dum instrumento também em ruínas (sempre a associação!): "Chorai Arcadas,/Despedaçadas,/Do violoncelo".
É preciso entrarmos bem no mundo poético de Pessanha para que os seus poemas não nos surjam como um desconjuntado de frases absurdas. As imagens constantes, as lúcidas conotações e associações são o segredo da unidade do poema. Pessanha é extremamente sensível à luminusidade e ao som, daí as sinestesias frequentes. Os estímulos sensoriais combinam-se, aproveitam-se mutuamente, para produzirem, neste poema, a impressão de água corrente, das ruínas, dos destroços. "Fundas, soluçam/Caudais de choro/Que ruína's (ouçam)". Evocam imagens visuais: "fundas", "caudais", "ruínas"; imagens auditivas: "soluçam", "choro", "ouçam". "Ouçam ruínas" é uma sinestesia que nos sugere não apenas as ruínas em si mas também o cataclismo que as provocou.
Imagens que passais pela retina
Tema: a fugacidade da vida, a dolorosa consciência de que a realidade para ele não passa de imagens rápidas, passageiras.
O tema apresenta, aqui, um desdobramento. À 1ª. pergunta inquietante, segue-se uma 2ª. carregada de niilismo. A uma atitude ansiosa traduzida nas perguntas, a traduzir a certeza de que tudo passa, segue-se, pois, nos tercetos a afirmação do nada que é ele e o homem o qual, à semelhança de Tantalo, não consegue prender a vida, que passa, para matar a sede de viver. Nesta 2ª. parte, justifica o poeta esse niilismo, pois os olhos, embora abertos e não cegos, são pagãos, nada fixam, nada pensam, são espelho inútil, aridez de sucessivos desertos, tudo despido e até os seus dedos incertos têm "movimentos vãos". Notem-se, nesta sequência de elementos conotativos de niilismo, os pares abstracto-concreto ou concreto-abstracto (olhos pagãos; aridez de desertos; espelho inutil; dedos incertos, sombra das mãos; movimentos vãos). Da mesma forma que são passageiras as imagens da vida, é fugaz a sombra; mas, apesar de tudo, o poeta agarra-se a ela como a única forma de presença possível na incapacidade de segurar a realidade, que não passa de imagens. E o imperativo fica traduz a ansiedade do poeta perante esse evoluir imperdoável, refugiando-se neste último recurso que, assim, restringe a vontade do todo numa parte.
A mudança não tem tempo; nela não há passado nem futuro, a vida é sempre no presente, que é rápido, e sempre a caminho do fim. Note-se, pois, a escassez de verbos, e, portanto, de orações, principalmente subordinadas. Nos verbos, aos que traduzem movimento como passais (duas vezes), ides e levais, contrapõem-se os de estabilidade fixais, termina, domina, fica. Mas estes são anulados por aqueles e, nem sequer termina e domina destroem esta noção de movimento que só acaba com a morte.
São abundantes as imagens simbólicas, significativas, de uma poesia abstracta a traduzir uma atitude de dúvida, ansiedade, desencanto, como já dissemos. Esses simbolos ou são dados directamente pela metáfora: "os olhos" (espelho inútil = aridez…), morte = fonte, para nunca mais = lago escuro (uma e outra com sentido gradativo crescente) ou indirectamente pela comparação: Imagens/que passais como a água cristalina (a comparação sugestiva do quase invisivel, do quase impalpável); ou, até mesmo, pelos sons: o predomínio da sibilante a conotar a ligeireza do tempo; a intensidade do som i gritante nas quadras mais tradutoras dessa ansiedade (11 vezes aparece eie), reduzindo-se nos tercetos à medida que se atenua essa angústia sem remédio, assinalando-se, até, o predomínio do som fechado oral ou nasal, mais cheio e rico de som; ainda sugestivo o emprego do som u fechado: escuro, curso com a sua conotação espacial.
As imagens simbólicas registam-se ainda a nivel de localização espácio-temporal que não conta na poesia de Pessanha. Aqui, simbolicamente nunca mais nega o tempo e lago escuro nega o espaço e levam-nos ao pensamento da morte, como vimos já. Note-se a antítese entre lago escuro - morte, o que é eterno, e água cristalina - vida, o que é efémero, o que passa: a água cristalina aponta para a efemeridade da vida que passa sem se dar conta, assim como a água da qual não se vê nem a cor, nem a forma.
Várias notações de lugar: pela retina, por uma fonte, para o lago onde, que são realçadas pela cor cristalina e escuro e pelo som silente que está contrariado pela presença de juncais (pavor-medo-morte?)
Há uma curiosa ligação entre a ideia de fugacidade das imagens sugeridas nas quadras e a vacuidade dos seus olhos que não podem reter essas imagens.
Atente-se também no valor da pontuação: três frases interrogativas, a lembrar-nos Antero, o inquiridor, também angustiado; duas exclamativas e duas reticentes a conotarem a inquietação, a ansiedade, o espanto perante o inatingivel, o impossivel.
A poesia serve para caracterizar o comportamento de Pessanha quanto à noção de espaço. Porque nos oferece uma visão subjectiva, porque fala de imagens, aponta para o colorido dominante da sua poética carregada de indefinições, ideias vagas, fluidas, imprecisas tal como o seu pensamento que, por isso, rejeita a descrição. É uma técnica tipicamente impressionista pelo significado dos sons, pelo indefinido dos traços, pela leveza das imagens captadas subtilmente pelos sentidos. Aliás, em Pessanha, o simbolismo afirma-se com frequência, como tivemos ocasião de observar.



