Antero de Quental
A obra de Antero de Quental apresenta três dimensões: a social - em que analisa a sociedade, procura encontrar as causas da sua decadência e propõe soluções baseadas no socialismo utópico de Proudhon; a filosófica - sob influência predominante de Hegel para quem a ideia é o objectivo último a atingir e a poética que versa: o Amor e a Razão, fontes da harmonia no indíviduo e na sociedade; a noite, o sonho e a morte, o pessimismo do regresso ao nada.
Os temas fundamentais da sua poesia são Deus, o Amor, a Justiça, a Fraternidade, a Morte, a Solidão e o Nada.
Na obra poética de Antero há a presença de um só tipo de interrogação, que não chega a ser filosófica mas simplesmente teórica, aquela que corresponde à colocação directa, imediata de determinadas questões: uma interrogação dirigida ao particular, a do eixo horizontal (relação EU/MUNDO) e uma interrogação sobre o mundo em geral, a do eixo vertical (relação EU/DEUS), interrogação cuja característica é manifestar-se mas não produzir-se a si mesma.
Na relação EU/MUNDO o poeta interroga o mundo, apoiado em filósofos do seu tempo. É um mundo novo que Antero quer ver surgir, sendo a "Poesia a voz da Revolução". É o ideal de amor, de justiça e de fraternidade que prega sem cessar.
Na relação EU/DEUS o poeta procura interpretar Deus de forma racionalista, afirmando a superioridade da razão humana.
Tese e Antítese
O poeta fala directamente da antítese e só indirectamente da tese - a "nova ideia" está personificada em "deusa furiosa", é a contestação da tese.
A tese é focada indirectamente mediante uma relação de causalidade: "Um século irritado e turculento" - há todo um estado de coisas que está mal, a tese soçobra perante a oposição da antítese.
A personificação da "nova ideia" em "deusa em fúria" destina-se a realçar a força revcolucionária e transformadora da antítese. A nova ideia surge, assim, como uma força universal que ninguém poderá deter. Os filósofos idealistas em que o poeta bebeu estas ideias identificavam panteisticamente esta força com um princípio universal, divino, que presidia à transformação inevitável da sociedade. Essa divindade transformadora era a alma do mundo.
Palavras e expressões caracterizadoras da "nova ideia", que a impõem como irresistível condutora da revolução (antítese):
- desgrenhada
- torva no aspecto
- como bacante após lúbrica ceia
- sanguinolento o olhar se lhe incendeia
- presa das fúrias de Medeia
Conciliação a "nova ideia" da 1ª. quadra com a "ideia" inalterável do 2º. terceto: "nova ideia" - é a ideia de transformação já no coração dos homens, aos quais a emoção leva a cometer excessos. Daí que se apresente "desgrenhada, torva no aspecto".
"Ideia" (dum mundo inalterável) - é a ideia universal e divina, a alma do mundo panteísta, que se considera imutável.
Relação de oposição partindo dos dois espaços: nas ruas/no cristalino céu: Nas ruas há a revolta incontrolável, incitada pela nova ideia, também incontrolável. Mas no espaço de um cristalino céu, a ideia já se encontra num mundo inalterável. É que esta ideia representa o princípio intelectivo divino, eterno e inalterável. A nova ideia, embora derivada deste princípio, já desceu ao povo, a um século irritado e truculento, que produz a revolta, a qual, sendo proveniente desse princípio universal e divino, é sagrada, como sagrada é a morte do herói que lutou pela justiça. Esta visão da revolução como proveniente de uma inteligência superior (a alma do mundo universal) é uma visão panteísta muito cara aos românticos.
Expressividade das duas metáforas do último verso: "fogo" e "luz" são duas metáforas pelas quais se pretende caracterizar o pensamento; "fogo" é a revolução (guerra) e "luz" é a Verdade, a Justiça, que está na ideia desse mundo inalterável. Mais uma vez se distingue a nova ideia (do mundo alterável das contigências) da ideia = ao pensamento (do mundo inalterável).
O Palácio da Ventura
| Estrutura interna | |
| 1ª. parte: vv.1-6 - a busca da felicidade (vv.1-4), o cansaço e a desilusão (vv.5-6). 2ª. parte: vv.6-12 - a ilusão momentânea, a nova esperança e o grito de ansiedade. 3ª. parte: vv.13-14 - a dor a e desilusão final. |
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| Recursos expressivos | |
| Nível fónico | Nível morfossintáctico |
| Rima: ABAB, ABAB, CCD, CCD. Cruzada, emparelhada e interpolada. Métrica: decassílabos Aliteração do fonema "s": "Sonho que sou um cavaleiro andante/Por desertos, por sóis, por noite escura" Ritmo: ternário - "Por desertos, por sóis, por noite escura" Binário: "Mas já desmaio, exausto e vacilante/Quebrada a espada já, rota a armadura…" |
Antíteses: "Palácio… fulgurante"/"dentro… escuridão" "abrem-se as portas d'ouro, com fragor"/"dentro… silêncio" "pompa e aérea formosura"/"e nada mais" campo lexical do sonho: por desertos, por sóis, por noite escura, paladino do amor, anelante, palácio encantado. campo lexical do cansaço: desmaio, exausto, vacilante, quebrada a espada, rota a armadura. |
| Uso das Adversativas: Mas (v.5) cria a oposição entre os dois momentos. "E eis" (v.7) com valor adversativo, permite o retomar da ilusão e da busca inicial. Mas (v.13) volta a mostrar que se confirma o segundo momento, ou seja, a desilusão. |
campo lexical da animação: súbito, fulgurante, grandes, bato, brado. campo lexical da desilusão: só, cheio de dor, silêncio, escuridão, nada. |
| As imagens medievais como símbolos do dinamismo psíquico: | |
| Imagens: cavaleiro andante palácio encantado por desertos, por sóis, por noite escura quebrada a espada, rota a armadura portas d'ouro |
Símbolos: paladino do amor e da felicidade (= ventura) am busca ansiosa sacrifício e sua ultrapassagem ilusão |
| a demanda medieval (do Graal) | a aventura do espírito humano, que busca a verdade e a felicidade, exigindo do homem o empenho para a sua conquista |
| Assunto: busca de uma felicidade (palácio encantado) e o encontro da desilusão. Procura-se sempre a felicidade mas, a maioria das vezes, só nos desiludimos durante essa busca. A felicidade é tão fugaz como uma miragem. | |



