Cantigas de Amor

"Quer' eu en maneira de proençal" de D. Dinis (CV 123/CBN 845)

Quer' eu en maneira de proençal
fazer agora un cantar d' amor
e querrei muit' i loar mha senhor,
a que prez nen fremusura non fal,
nen bondade, e mais vos direi en:
tanto a fez Deus comprida de ben
que mais que todas las do mundo val,

Ca mha senhor quiso Deus fazer tal
quando a fez, que a fez sabedor
de todo o ben e de mui gran valor
e con todo est' é mui comunal,
ali u deve; er deu-lhi bon sen
e des i non lhi fez pouco de ben,
quando non quis que lh' outra foss' igual.

Ca en mha senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad' e loor
e falar mui ben e rir melhor
que outra molher; de i é leal
muit', e por esto non sei oj' eu quen
possa compridamente no seu ben
Tema: trovar de amor.
Assunto: o sujeito poético enaltece e elogia a sua dama, referindo as suas qualidades morais, exaltando a sua beleza e afirmando que nenhuma outra a ela sa compara.
Recursos estilísticos:
hipérbole (ao longo de todo o poema);
quantificativos: "todo, gran, mui, ben, mui gran, melhor";
polissíndeto: "e beleza e lorr e falar mui ben e rir melhor".
Forma:
cantiga de mestria, de atafinda, coplas uníssonas;
verbos isométricos, decassílabos agudos.
Esquema rimático: abbacca; rima interpolada e emparelhada, pobre.

"Os que non aman nen saben d' amor" de Joan Baveca (CV 699/CBN 1041)

Os que non aman nen saben d' amor
fazen perder aos que amor an;
vedes por quê: quand' ant' as donas van,
juran que morren por elas d' amo
e elas saben pois que non é si,
e por esto perç' eu e os que ben
lealmente aman segundo meu sen.

Ca, se elas soubessem os que an
ben verdadeiramente grand' amor
d' alguen se doeria sa senhor,
mais por aqueles que o jurad' an
cuidan-s' elas que todos taes son
e por esto perç' eu e os que ben
lealmente aman segundo meu sen.

E aqueles que já medo non an
que lhis faça coita sofrer amor,
veen ant' elas e juran melhor
ou tan ben come os que amor an
e elas non saben quaes creer,
e por esto perç' eu e os que ben
lealmente aman segundo meu sen.

e os ben desemparados d' amor
juran que morren con amor que an
seen' ant' elas, e menten de pran,
mais, quand' ar ven os que an amor,
já elas cuidan que veen mentir.
e por esto perç' eu e os que ben
lealmente aman segundo meu sen.
Tema: fingimento de amor cortês
Assunto: o sujeito lírico queixa-se e condena os que nada sabem de amor e só prejudicam os que amam de verdade, porque quando confessam o seu amor às donas, elas sabem que é tudo a fingir; as donas depois não acreditam naqueles que as amam, pensam que é tudo um fingimento.
Recursos estilísticos:
transporte ou encavalgamento que confere ao texto uma certa progressão;
anáfora "e" na última estrofe que estabelece um paralelismo semântico e uma certa obsessão; há, consequentemente, um paralelismo de construção semântico e literal, muito semelhante ao dos cantares de amigo, reforçado pela utilização do refrão.
Forma:
cantiga de refrão, em decassílabos agudos, com palavra perduda ("creer" não rima com mais nenhum verso, está solto no meio da estrofe).

"Desej' eu ben aver de mha senhor," de Joan Airas de Santiago (CV 521/CBN 897)

Desej' eu ben aver de mha senhor,
mais non desej' aver ben d' ela tal,
por seer meu ben, que seja seu mal,
e por aquesto, par Nosso Senhor,
non queria que mi fezesse ben
en que perdesse do seu nulha ren,
ca non é meu ben o que o seu mal for,

Ante cuid' eu que o que seu mal é
que meu mal este e cuido gran razon,
por en desejo no meu coraçon
aver tal ben d' ela, per boa fé,
en que non perça ren de seu bon prez
nen lh' ar diga nulh' omem que mal fez,
e outro ben Deus d' ela non mi dê.

E já eu muitos namorados vi
que non davan nulha ren por aver
sas senhores mal, pois a si prazer
fazian, e por esto dig' assi:
se eu mha senhor amo polo meu
ben e non cato a nulha ren do seu,
non am' eu mha senhor, mais amo mi.

e mal mi venha, se atal fui eu,
ca, des que eu no mund' andei por seu,
amei sa prol muito mais ca de mi.
Tema: amor espiritual e místico em oposição ao amor erótico, carnal.
Assunto: o poeta pretende amar a sua "senhor" de forma a não a prejudicar, pois o seu mal atingi-lo-á também; naquele amor ele atinge a plenitude, a sua elevação espiritual; deseja ser correspondido no seu amor mas não deseja que esse seu bem seja o mal dela, preferia então que ela não correspondesse ao seu amor.
Recursos estilísticos:
antítese: "ca non é meu ben o que seu mal for";
repetição: "ben aver"/"aver ben" com as respectivas inversões, anástrofes e até as semelhanças fónicas de alguns lexemas: "aver"/"seer", paranomásia e, até, as orações subordinativas criam um texto hermético e bem artificial.
Forma:
cantiga de mestria, com coplas singulares, de hendecassílabos graves e agudos, com duas findas de três versos e monóstica, segundo o esquema rimático: ababccb/ddb; rima cruzada, emparelhada e interpolada.

"Como morrer quen nunca ben" de Paai Soarez de Taveiroos (CA 35/CBN 122)

Como morreu quen nunca ben
ouve da ren que mais amou
e de quen viu quanto receou
d' ela e foi morto por en,
ai, mha senhor, assi moir' eu!

Como morreu quen foi amar
quen lhe nunca quis ben fazer
e de quen lhe fez Deus veer
de que foi morto con pesar,
ai, mha senhor, assi moir' eu!

Como morreu quen amou tal
dona que lhe nunca fez ben,
e quen a viu levar a quen
a non valia, nen a val,
ai, mha senhor, assi moir' eu!
Tema: não correspondência amorosa, fatalismo de amor.
Assunto: o sujeito lírico compara-se a alguém que morreu de amor porque a sua "senhor" nunca o amou "nunca ben/ouve da ren que mais amou" e, assim, também ele morre.
Recursos estilísticos:
anástrofe: "ben/ouve" que reflecte uma certa tensão emotiva, que é bem sugerida pela paronomásia "ben/ren";
polissíndeto que cria uma certa progressão no discurso, para sugerir o trágico da situação, "e foi morto por en" que é bem reforçada pela gradação ascendente: ele nunca "ben/ouve", "receou d' ela e foi morto por en" e toda a tensão dramática se esgota no refrão, num queixume dado pela interjeição "ai" seguida da apóstrofe "senhor" e ele confessa a sua dor;
paralelismo anafórico e semântico na segunda estrofe que continua numa progressão dramática através do polissíndeto, da gradação e da anástrofe; a aliteração da fricativa "v" em "e quen a viu levar a quen/a non valia, nen a val," parece aproximar-nos da realidade e imprimir o movimento da partida, juntamente com o imperfeito que dá o carácter durativo da acção.
Forma:
cantiga de amor com refrão, coplas singulares, cada estrofe tem a sua rima de octossílabos agudos e os versos têm o seguinte esquema rimático: abbaC; rima emparelhada e interpolada.

"Que soidade de mha senhor ei," de D. Dinis (CV 119/CBN 481)

Que soydade de mha senhor ey,
quando me nembra d'ela qual a vi
e que me nembra que ben a oy
falar, e, por quanto ben d'ela sey,
rogu' eu a Deus, que end' á o poder
que mh-a leixe, se lhe prouguer, veer

Cedo, ca, pero mi nunca fez ben,
se a non vir, nom me posso guardar
d' enssandecer ou morrer con pesar,
e, por que ela tod' en poder ten,
rogu' eu a Deus, que end' á o poder,
que mh-a leixe, se lhe prouguer, veer

Cedo, ca tal a fez Nostro Senhor:
de quantas outras [e] no mundo son
non lhe fez par a la minha fé, non,
e, poy-la fez das melhores melhor,
rog' eu a Deus que end' á o poder,
que mh-a leixe, se lhe prouguer, veer

Cedo, ca tal a quis [o] Deus fazer
que, se a non vyr, non posso viver.
Tema: amor paixão.
Assunto: o trovador sente tal saudade da sua "senhor", a melhor de todas as mulheres, que, se não a vir, pode enlouquecer ou até morrer; recorda o momento em que a viu e mostra toda a sua dor num queixume, num monólogo que se arrasta e que o transporte (encavalgamento) prolonga, numa mágoa mal contida; recorda todos os momentos desde que a viu e pede a Deus que lha deixe ver cedo.
Recursos estilísticos:
hipérbole: "nom me posso guardar/d' enssandecer ou morrer con pesar," ou "ca tal a fez Nostro Senhor:/de quantas outras [e] no mundo son";
polissíndeto que cria um ritmo adequado a esta exaltação em que o poeta vive embora a Anástrofe, a deslocação dos verbos para o fim da frase, denunciem um certo artificialismo.
Forma: cantiga de refrão e de atafinda, em decassílabos agudos, com finda de dois versos, segundo o esquela rimático: abbaCC/cc; rima interpolada e emparelhada.