Camilo Castelo Branco: A Queda dum Anjo

Título

Breve resumo do enredo da obra

Calisto Elói, morgado da Agra de Freimas, vive em Caçarelhos com sua mulher, D. Teodora de Figueiroa, e com os seus livros clássicos, cuja leitura é o seu entretenimento preferido. Tendo sido eleito deputado pelo círculo de Miranda, vem para Lisboa, disposto a lutar contra a corrupção dos costumes. Faz furor no Parlamento com os seus discursos conservadores, através dos quais mostra um perfeito domínio da oratória parlamentar. Defende principalmente o bom uso da língua portuguesa e combate o luxo e os teatros. Sempre apoiado na sua cultura livresca, os seus discursos fazem sensação no Parlamento, causando as mais desencontradas reacções. Defendendo sempre a moral dos bons costumes antigos e atacando os modernos, a sua figura vai-se avolumando, adquirindo uma dimensão grandiosa. Depois de atingir o climax, inicia-se o processo da queda. Esta consiste essencialmente na transformação total do herói, que adquire os costumes modernos que tanto condenava. Inicia uma relação ilícita com D. Ifigénia Ponce de Leão, com quem acaba por viver maritalmente e de quem tem dois filhos. Entretanto D. Teodora, abandonada pelo marido, vai também viver maritalmente com seu primo, Lopo de Gamboa, de quem tem um filho.

A acção principal: os momentos

1º. momento
(Cap. I-XIII)
2º. momento
(Cap. XIV-XXIII)
3º. momento
(Cap. XXIV - fim)
apresentação de Calisto

candidato a deputado

deputado

inadaptado

parlamentar

fautor da paz familiar
Calisto descobre Adelaide

Calisto inicia as mudanças

Calisto prepara a queda
Calisto ama Ifigénia

Calisto transforma-se radicalmente: de "anjo" passa a homem

Caracterização da personagem principal

Calisto Elói

1ª. fase 2ª. fase 3ª. fase
fidalgo tradicionalista
Cap. I

formado religiosa e culturalmente em Caçarelhos
Cap. I

versado em autores clássicos
Cap. I

estudioso dos nossos clássicos anteriores a Francisco M. Melo
Cap. I

impermeável às doutrinas iluministas
Cap. II

casado por interesse, sem amor
Cap. X
deputado no parlamento
Cap. VIII

miguelista
Caps. VIII e IX

defensor da moral tradicionalista
Cap. VIII

inimigo do luxo e do progresso
Cap. VIII

inimigo da Regeneração
Cap. VIII

ridículo
Caps. VII e VIII

apóstolo da moral familiar
Cap. XIII
uma mulher desperta-lhe a sensualidade
Cap. XXIV

inicia a queda, mudança total de hábitos
Cap. XIX

mudança política: liberal
Cap. XXXIII

esquece Teodora
Cap.

ama Ifigénia
Cap. XXV

vive com Ifigénia, de quem tem dois filhos
Cap. XXXVI

separa-se da mulher
Cap. XXXV
o "anjo" em terrenos perigosos o "anjo caído"

Caracterização das personagens centrais

Teodora Barbuda de Figueiroa

1ª. fase 2ª. fase
prosaica fidalga rural
Cap. I

ignorante
Cap. I

"em tudo romana"
Caps. II-X

mulher de trabalho
Cap. XIV

desconhecedora do erostismo desconhecido
Cap. XXXIV

a inocente
Cap. XXIII
esquecida das virtudes conjugais
Caps. XXXIV-XXXV

dá-se conta da sexualidade; amantiza-se com o primo Lopo de Gamboa
Caps. XXXV-XXXVI

é mãe de um rapaz
Cap. XXXVI

é feliz na transgressão
Cap. XXXVI

a pecadora
Cap. XXXVI
a inocente a pecadora

Dr. Libório

Orador liberal; deputado regenerador; inimigo ideológico de Calisto; orador balofo e barroco; símbolo do Portugal pretensamente progressista e decadente.

Ifigénia

Brasileira loira, com trinta anos; víuva do brigadeiro Ponce de leão; apresenta-se a Calisto a pedir a sua intervenção para a obtenção de uma pensão pelos serviços prestados à Pátria pelo marido; é a "mulher fatal" que conquista de imediato o coração de Calisto, já tocado pela seta de Cupido, provinda de Adelaide Sarmento.

Espaço

Espaço Físico Espaço Psicológico
Rural: Miranda - Caçarelhos de conforto, de leituras, de cultura e bem estar (1ª. fase)

de estrangulamento, de inadaptação, de aversão (2ª. fase)
Urbano: Lisboa, Parlamento, Casa do Desembargador, Campolide, Sintra. de estrangulamento, de inadaptação, de aversão (1ª. fase)

de conforto, de luxo, de bem estar, de paixão (2ª fase)

O espaço rural: Caçarelhos;

O espaço social que caracteriza a vida na capital: a Casa do Desembargador, Sintra e Campolide.

O espaço marca a queda, pois o "anjo" desce de um espaço (alto, angelical) para um outro (mais baixo, terreno).

Miranda Lisboa
Caçarelhos

Aldeia

espaço rural, primitivo, impermeável ao progresso
Parlamento

Casa do Desembargador
Campolide
Sintra

espaço citadino, centro do progresso e dos vícios
Portugal Velho Portugal da Regeneração

Inventariação do Tempo

Oposição passado/presente

1815-1859 1859-1861
Tempo Passado Tempo Presente
Tempo de formação cultural e moral Tempo de interrupção e da queda
Calisto Anjo Calisto Homem

As intensões críticas da obra

  1. A ignorância dos morgados e o atrazo em que vive o interior do país;
  2. O casamento por interesse, causa de frustrações afectivas;
  3. O passado, tempo de virtudes fundamentais, mas incapazes de fermentar o presente;
  4. O tempo da regeneração, tempo de algum progresso, mas também de muita corrupção;
  5. O desfasamento entre o discurso de "caça aos votos" e a prática parlamentar;
  6. A defesa da língua portuguesa;
  7. O valor positivo da sexualidade: o amor, assumido pessoalmente, é fecundo e agente de transformação;
  8. Destruição do conflito milenar entre o prazer amoroso e o pecado/remorso.