Camilo Castelo Branco: A Queda dum Anjo
Título
- transgressão, passagem (queda) de um ser sem defeitos, divinizado (anjo) a um ser humano, humanizado pelo amor;
- a máxima de Rousseau " O homem nasce bom, mas a sociedade corrompe-o".
Breve resumo do enredo da obra
Calisto Elói, morgado da Agra de Freimas, vive em Caçarelhos com sua mulher, D. Teodora de Figueiroa, e com os seus livros clássicos, cuja leitura é o seu entretenimento preferido. Tendo sido eleito deputado pelo círculo de Miranda, vem para Lisboa, disposto a lutar contra a corrupção dos costumes. Faz furor no Parlamento com os seus discursos conservadores, através dos quais mostra um perfeito domínio da oratória parlamentar. Defende principalmente o bom uso da língua portuguesa e combate o luxo e os teatros. Sempre apoiado na sua cultura livresca, os seus discursos fazem sensação no Parlamento, causando as mais desencontradas reacções. Defendendo sempre a moral dos bons costumes antigos e atacando os modernos, a sua figura vai-se avolumando, adquirindo uma dimensão grandiosa. Depois de atingir o climax, inicia-se o processo da queda. Esta consiste essencialmente na transformação total do herói, que adquire os costumes modernos que tanto condenava. Inicia uma relação ilícita com D. Ifigénia Ponce de Leão, com quem acaba por viver maritalmente e de quem tem dois filhos. Entretanto D. Teodora, abandonada pelo marido, vai também viver maritalmente com seu primo, Lopo de Gamboa, de quem tem um filho.
A acção principal: os momentos
| 1º. momento (Cap. I-XIII) |
2º. momento (Cap. XIV-XXIII) |
3º. momento (Cap. XXIV - fim) |
| apresentação de Calisto candidato a deputado deputado inadaptado parlamentar fautor da paz familiar |
Calisto descobre Adelaide Calisto inicia as mudanças Calisto prepara a queda |
Calisto ama Ifigénia Calisto transforma-se radicalmente: de "anjo" passa a homem |
Caracterização da personagem principal
Calisto Elói
| 1ª. fase | 2ª. fase | 3ª. fase |
|
fidalgo tradicionalista Cap. I formado religiosa e culturalmente em Caçarelhos Cap. I versado em autores clássicos Cap. I estudioso dos nossos clássicos anteriores a Francisco M. Melo Cap. I impermeável às doutrinas iluministas Cap. II casado por interesse, sem amor Cap. X |
deputado no parlamento Cap. VIII miguelista Caps. VIII e IX defensor da moral tradicionalista Cap. VIII inimigo do luxo e do progresso Cap. VIII inimigo da Regeneração Cap. VIII ridículo Caps. VII e VIII apóstolo da moral familiar Cap. XIII |
uma mulher desperta-lhe a sensualidade Cap. XXIV inicia a queda, mudança total de hábitos Cap. XIX mudança política: liberal Cap. XXXIII esquece Teodora Cap. ama Ifigénia Cap. XXV vive com Ifigénia, de quem tem dois filhos Cap. XXXVI separa-se da mulher Cap. XXXV |
| o "anjo" | em terrenos perigosos | o "anjo caído" |
Caracterização das personagens centrais
Teodora Barbuda de Figueiroa
| 1ª. fase | 2ª. fase |
|
prosaica fidalga rural Cap. I ignorante Cap. I "em tudo romana" Caps. II-X mulher de trabalho Cap. XIV desconhecedora do erostismo desconhecido Cap. XXXIV a inocente Cap. XXIII |
esquecida das virtudes conjugais Caps. XXXIV-XXXV dá-se conta da sexualidade; amantiza-se com o primo Lopo de Gamboa Caps. XXXV-XXXVI é mãe de um rapaz Cap. XXXVI é feliz na transgressão Cap. XXXVI a pecadora Cap. XXXVI |
| a inocente | a pecadora |
Dr. Libório
Orador liberal; deputado regenerador; inimigo ideológico de Calisto; orador balofo e barroco; símbolo do Portugal pretensamente progressista e decadente.
Ifigénia
Brasileira loira, com trinta anos; víuva do brigadeiro Ponce de leão; apresenta-se a Calisto a pedir a sua intervenção para a obtenção de uma pensão pelos serviços prestados à Pátria pelo marido; é a "mulher fatal" que conquista de imediato o coração de Calisto, já tocado pela seta de Cupido, provinda de Adelaide Sarmento.
Espaço
| Espaço Físico | Espaço Psicológico |
| Rural: Miranda - Caçarelhos | de conforto, de leituras, de cultura e bem estar (1ª. fase) de estrangulamento, de inadaptação, de aversão (2ª. fase) |
| Urbano: Lisboa, Parlamento, Casa do Desembargador, Campolide, Sintra. | de estrangulamento, de inadaptação, de aversão (1ª. fase) de conforto, de luxo, de bem estar, de paixão (2ª fase) |
O espaço rural: Caçarelhos;
O espaço social que caracteriza a vida na capital: a Casa do Desembargador, Sintra e Campolide.
O espaço marca a queda, pois o "anjo" desce de um espaço (alto, angelical) para um outro (mais baixo, terreno).
| Miranda | Lisboa |
| Caçarelhos Aldeia espaço rural, primitivo, impermeável ao progresso |
Parlamento Casa do Desembargador Campolide Sintra espaço citadino, centro do progresso e dos vícios |
| Portugal Velho | Portugal da Regeneração |
Inventariação do Tempo
- Tempo da narração: "hoje" Cap. I - coincide com o ano de 1864;
- Tempo da história: "Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra Freimas, tem hoje 49 anos, por ter nascido em 1815, casou talvez em 1835, foi presidente da Câmara de Miranda em 1840, veio para o Parlamento em fins de Janeiro de 1859 e aí permaneceu durante um triénio. É neste triénio que se desenrola a acção principal do Romance/Novela.
Oposição passado/presente
| 1815-1859 | 1859-1861 |
| Tempo Passado | Tempo Presente |
| Tempo de formação cultural e moral | Tempo de interrupção e da queda |
| Calisto Anjo | Calisto Homem |
As intensões críticas da obra
- A ignorância dos morgados e o atrazo em que vive o interior do país;
- O casamento por interesse, causa de frustrações afectivas;
- O passado, tempo de virtudes fundamentais, mas incapazes de fermentar o presente;
- O tempo da regeneração, tempo de algum progresso, mas também de muita corrupção;
- O desfasamento entre o discurso de "caça aos votos" e a prática parlamentar;
- A defesa da língua portuguesa;
- O valor positivo da sexualidade: o amor, assumido pessoalmente, é fecundo e agente de transformação;
- Destruição do conflito milenar entre o prazer amoroso e o pecado/remorso.



