Almeida Garret
Liberal e Romântico
Almeida Garrett nasceu há duzentos anos no Porto. Atravessou a primeira metade do século XIX a lutar pela liberdade e contra o sectarismo, religioso ou político. O combate liberal construiu um homem de discurso firme e pena acertada. Escreveu muito em todos os géneros. Renovou a língua e lançou as bases do moderno português literário. Criou o Conservatório e renovou o teatro. Morreu em Lisboa, em 1854. Doente, mas apaixonado.
O Teatro do Bairro Alto viveu uma noite fantástica a 29 de Setembro de 1821. A sala abarrotava de apaixonados pela nova aragem liberal. O cartaz anunciava a estreia da peça Catão, assinada pelo jovem Almeida Garrett. A impaciência da espera gerava um burburinho intenso. Atrás do pano, os actores deliciavam-se, em curtas espreitadelas, a passear o olhar por alguns exemplares da corte de Lisboa. Num desses instantes, quando faltavam poucos minutos para subir o pano, Luiz Midosi pergunta a Garrett se já vira o camarote da sua família e se, em particular, reparara na beleza de sua prima Luísa.
O autor de Catão e responsável pela personagem Bruto não resiste ao convite e olha. O que os seus olhos vêem naquele instante, nem um raio capaz de rasgar o céu todo seria capaz de iluminar. Garrett fica petrificado a contemplar Luísa Midosi, vestida de branco e com os cabelos louros cobertos por um chapéu de cetim rosa. Imobilizado, só consegue largar um grito de espanto. A moça tem apenas 14 anos, mas possui a beleza luminosa de uma miragem.
Perturbado, o escritor encontra forma de ser de imediato apresentado a Luísa. Logo a seguir sobe o pano para a tragédia. Garrett recita o prólogo. Quando chega aos últimos versos, espeta o olhar na jovem e já não controla o modo arrebatado como declama: "E tu, sexo gentil, delícias, mimo/Afago da existência e encanto d'ela…"
Um ano depois estavam casados, apesar da diferença de idades. Ele cego pela beleza dela. Ela animada pela curiosidade de penetrar no estranho mundo de um homem cada vez mais famoso. Ele disposto a dar-lhe saber e cultura. Ela às vezes enfadada com tanto empenho no estudo de assuntos tão remotos e aparentemente inúteis. Ele, voluntarioso, chega a conceber um plano de ensino intitulado O Liceu das Damas, lições de poesia a uma jovem senhora.
O projecto não teve continuidade. O casamento desmoronou-se em definitivo 14 anos depois. Luísa terá tido uma ligação extraconjugal em Bruxelas, e Garrett, cuja especialidade era repartir-se, como diz o seu biógrafo Francisco Gomes de Amorim, nunca desmereceu a fama de ter sido desviado de uma carreira eclesiástica por não saber resistir aos amores.
A paixão por Luísa Midosi surge numa fase de romantismo extremado, quase infantil, durante a qual chegaram a atropelar-se algumas ligações.
No fim da vida, Garrett assumirá um compromisso adúltero com a Viscondessa da Luz, inspiradora de uma razoável quantidade de poemas eróticos, marcados pelo travo amargo da culpa, sentido por um fiel seguidor dos ideais cristãos. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra. É que, pelo meio destas relações mais notadas, o escritor teve outros devaneios intensos, como por Adelaide Pastor, de quem, para seu tormento, tem uma filha não legitimada pelo casamento.
Pelo caminho sinuoso de uma existência de 55 anos, João Baptista da Silva Leitão, mais tarde de Almeida Garrett, cultivou uma infinidade de paixões: pela leitura dos clássicos, pelas lendas populares, pelo empenhamento político e revolucionário, pela escrita desmedida em todos os géneros literários, pela oratória inflamada e pelas mulheres. Se fosse necessário resumir-lhe a vida numa frase curta, dir-se-ia ter, no essencial, cultivado três amores, cada um deles com o seu duplo: Deus e as mulheres; a liberdade e a escrita; a pátria e a política.
Não terá sido sina ou destino, mas desde aquele dia 4 de Fevereiro de 1799, quando na então Rua do Calvário - agora Barbosa de Castro -, junto à Cordoaria, no Porto, nasce o segundo dos cinco filhos de António Bernardo da Silva e Ana Augusta de Almeida Leitão, não era difícil imaginar-lhe um futuro promissor, ligado às artes, às leis ou ao sacerdócio. A família, a que o apelido irlandês Garrett, herdado da avó paterna, conferia um vago perfume de estrangeirismo aristocrático, tinha todas as condições para lhe proporcionar uma sólida formação moral, religiosa, escolar e cívica.
O pai, selador da Alfândega do Porto, era natural da ilha do Faial e irmão de Alexandre José da Silva, eleito em 1781 Bispo de Malaca, para, três anos depois, ser designado governador do bispado de Angola. A influência do tio bispo, D. Frei Alexandre, foi sempre tão intensa que depressa todos começaram a imaginar o jovem João Baptista com hábitos de noviço. A vida é, porém, um rio com um fluxo difícil de contornar, e Garrett nunca aceitou vestir o fato desenhado por outros.
Por alturas das invasões francesas, a família de João Baptista opta por se resguardar na ilha Terceira, nos Açores. Então com 10 anos, Garrett, sem perder memórias recentes da infância passada numa quinta em Gaia, onde tanto se fascinara com as histórias fantásticas narradas pela mulata Rosa de Lima e pela velha criada Brígida, começa a receber uma esmerada educação clássica, assegurada, primeiro, pelo tio João Carlos Leitão e, depois, por D. Frei Alexandre.
A criança é dotada, possui uma memória espantosa, compõe precocemente odes anacreônticas e um sermão, com facilidade digere as aulas de latim, retórica, poética, filosofia ou língua grega, e isso não pode deixar de chamar a atenção do tio bispo. Como quem sabe ter em mãos um diamante em bruto, D. Frei Alexandre acaricia-lhe o saber já adquirido e inunda-o de conhecimentos novos, das ciências às matemáticas, com passagem pelas grandes obras da literatura de todos os tempos, com particular incidência nas culturas grega e romana.
Esta formação terá uma influência decisiva no posterior percurso de Garrett. Osvaldo Silvestre, professor de Teoria da Literatura, ao comentar a circunstância de ter sido João Baptista a publicar os dois textos fundadores do romantismo - Camões e D. Branca -, valoriza a importância do seu contacto com o tio bispo, que lhe proporcionou uma educação neo-clássica: "Há uma conciliação de clareza, harmonia clássica e um certo desregramento. Se lermos os românticos ingleses e alemães e passarmos para Garrett, vemos que não há nele aquela imagem excessiva, típica do romântico. Nesse aspecto, está muito próximo de Goethe e chega a ser crítico dos excessos do romantismo."
João Baptista chega a Coimbra em 1816 para cursar Direito e é já um jovem com uma forte personalidade, uma incomensurável sede de saber e uma absoluta disponibilidade para agarrar o fermento da mudança em gestação nos meios estudantis. Ofélia Paiva, uma das maiores especialistas portuguesas em Almeida Garrett, sustenta que a permanência em Coimbra, entre 1816 e 1821, transforma o adolescente religioso, sensível, alegre e filantropo "num adepto entusiasta do liberalismo".
Garrett não suporta a ideia de respirar o ar putrefacto da velha ordem estabelecida. Não abdica da boémia coimbrã nem da multiplicação dos amores, mas, diz ainda Ofélia Paiva, "começa a frequentar lojas maçónicas, cultiva a literatura militante, com particular destaque para o teatro, em que também intervém como actor, participa em actividades académicas que preparam ou, depois, celebram a revolução que estala no Porto, em Agosto de 1820, levando ao poder um nacionalismo avançado, mas desejoso de ordem".
Este Garrett que se impõe em Coimbra como uma espécie de caudilho estudantil é produto da influência de um certo iluminismo, onde está presente a leitura de autores como Rosseau, Montesquieu ou Voltaire. Fernando Catroga, professor catedrático ligado ao Instituto de Teoria e História das Ideias da Universidade de Coimbra, sublinha que as opções políticas de João Baptista, quando se consolidam no seio da academia coimbrã, constituem "uma síntese de tradição de jus-racionalismo, da tradição dos direitos naturais do homem, com as lições extraídas da interpretação da história. Isso torna-se perceptível a partir de meados dos anos vinte e está patente nos textos que vão dar origem a Portugal no Balanço da Europa, onde fundamenta o seu posicionamento liberal".
O envolvimento de Garrett na luta pela mudança no país germina a partir de 1817-1818, período durante o qual cresce a sua actividade política e literária, marcada pelo empenho na causa da liberdade. Um detalhe de vida poderia ter roubado João Baptista à participação activa naqueles que, como diz Fernando Catroga, foram os seus grandes combates: a luta pela liberdade individual e a rejeição de todas as formas de despotismo.
Uma vez no Porto, durante as férias subsequentes ao final do ano lectivo de 1819, não resiste a experimentar um novo cavalo comprado por seu irmão Alexandre. Logo depois de ter montado, é surpreendido com uma série de pinotes do animal, que o projecta sobre a calçada da Rua da Boavista. Bate com a cabeça numa pedra e fica sem sentidos, às portas da morte. Levam-no para casa em braços, a escorrer sangue pela boca. São chamados os melhores médicos da cidade, e durante dias persiste a dúvida sobre se conseguirá salvar-se.
Salvou-se, mas ficou para sempre com uma grande cicatriz, que o desfigurava. Passa a ter de usar chinó, e isso torna-se motivo de chacota dos seus opositores. Afinal, já lhe chamavam "bacorinho", devido ao seu apelido Leitão. Num misto de ironia e amizade, outros preferiam chamar-lhe "divino", porque, dizia-se, ninguém falava ou escrevia como ele, mas também poucos, como Garrett, usariam chinó, coletes tão garridos e calças tão vistosas.
No início de 1820, Garrett começa a escrever, a representar e a ensaiar peças dramáticas nos teatros estudantis de Coimbra. Poderá ter nascido aí, ainda que de forma embrionária, a sua faceta de renovador do teatro português. Há ainda um grande espólio de Garrett por revelar, guardado na Universidade de Coimbra, e alguns investigadores afirmam existirem por lá manuscritos e rascunhos de peças onde se esboça já o edifício teórico do que viriam a ser as posições de Garrett em relação ao teatro português.
Em 1836, com a subida ao poder de Passos Manuel, há-de ser convidado a propor um plano para a fundação e organização de um teatro nacional. É então, por sua iniciativa, que surgem a Inspecção-Geral dos Espectáculos, o Conservatório Real e o Teatro Nacional D. Maria II.
José Oliveira Barata, o catedrático responsável pelo Instituto de Estudos Teatrais da Faculdade de Letras de Coimbra, destaca a importância do trabalho de Garrett ao criar o Conservatório Nacional: "Tal como Schieler falava do teatro como instituição moral, também Garrett concebia um plano que previa a formação de actores, a criação de uma dramaturgia e a construção de um espaço onde as pessoas iriam para se cultivar".
As peças de Garrett têm objectivos precisos. Catão, por exemplo, é escrito na Universidade como bandeira e exaltação dos valores da liberdade. Na introdução ao Auto de Gil Vicente denuncia as crises do teatro português. No Alfageme de Santarém, a pretexto da Revolução de 1383, percebe-se uma exaltação da classe média, que se opunha ao domínio estrangeiro e a todas as prepotências de casta. Nas Profecias de Bandarra desmistifica o mito do sebastianismo. No Frei Luís de Sousa, tal como em D. Filipa de Vilhena, surgem quadros da História de Portugal, aproveitados para uma exaltação das virtudes nacionais e cívicas. Em Garrett, diz Oliveira Barata, "o teatro é um instrumento de acção política, capaz de interagir com a realidade".
Essa opção terá sido determinante para dar dimensão à obra de um homem contemporâneo de tempos por demais agitados. Acabou por sentir na pele as consequências das opções tomadas. Como quando, em 1822, publica em Coimbra o poema "Retrato de Vénus", acusado de materialista e ímpio. O autor é levado a tribunal, num processo muito polémico, aproveitado por Garrett para proferir discursos e lançar escritos sobre a liberdade religiosa. Em resposta às censuras movidas ao seu poema, faz publicar, no "Portuguez Costitucional Regenerado", uma declaração segundo a qual "nenhum tribunal público, civil ou eclesiástico, tem o direito de exigir a minha confissão religiosa. Nenhuma autoridade sobre a face da terra pode dizer-me: Qual é a tua crença? Quais os teus sentimentos sobre o dogma? Qual é a fé da tua alma?".
Determinado, empenhado, sempre interventivo, Almeida Garrett aproveita os jornais para expor as suas posições, como sublinha Isabel Vargues, professora de História Contemporânea e directora do Instituto de Estudos Jornalísticos da Universidade de Coimbra. A intervenção em publicações periódicas tem um papel central no projecto político de um homem inconformado e atento a todo um conjunto de novas questões que iam surgindo na sociedade do seu tempo. Actua a partir dos locais mais inesperados, como quando se serve de "O Toucador", um jornal para senhoras, onde escrevia sobre modas e regras de etiqueta, mas é a partir de um ponto de vista linguístico que faz adivinhar o nascimento de uma nova prosa literária. Parte dele a iniciativa de questionar a propriedade intelectual, num debate com Alexandre Herculano, e, como bom produto do Iluminismo e da Revolução Francesa, assume um importante papel na luta pela liberdade de imprensa.
O autor de Folhas Caídas, que, em 1822, então jovem licenciado, toma conta do lugar de secretário do Ministério do Reino, vê-se forçado ao exílio em 1823, mas um mês depois já está de volta. Em 1826 escreve para "O Português", mas o jornal é censurado e os redactores impedidos de continuarem a publicação. Garrett não desiste e, mesmo no exílio, continua a servir-se dos jornais para defender os ideais liberais. É assim em "O Chaveco Liberal" (1929), editado em Londres, ou em "O Percursor", publicado nos Açores.
Este empenho na causa liberal não chegou, contudo, para afastar uma mágoa que havia de lhe atravessar toda a existência. Jamais conseguiu ser indicado para o lugar de deputado pelo Porto. Numa carta a Gomes Monteiro, datada de 1838, dizia que, "sem falsa modéstia nem escrúpulo algum, lhe digo que trago atravessado na garganta o não ser eleito pela minha terra". Já então os jogos de influência determinavam escolhas. Essa lacuna é muito sentida por um homem transformado em referência das lutas políticas da primeira metade do século XVIII.
É dele o hino à liberdade, escrito a pretexto da vitoriosa Revolução de 1820, mas também é dele a frustração pela incapacidade do Vintismo em impor-se num país demasiado preso à velha ordem.
Fugiu da Vila-Francada (1823), regressou em 1826, voltou aos jornais, mas esteve preso e sob a ameaça da forca. Exilou-se em Inglaterra para fugir aos miguelistas (1828) e participou no desembarque do Mindelo (1832), integrado nas tropas de D. Pedro. Este período superior a uma década, de peregrinação por vários lugares de exílio - Inglaterra, França -, proporciona-lhe uma invulgar abertura cultural e estética. A mudança no sentido da criação de um espírito romântico é estimulada pelos contactos com Byron, Walter Scott, Lamartine, Victor Hugo ou, até, pelo modo novo como lê Shakespeare ou Schegel.
Durante o cerco do Porto está no Convento dos Grilos, onde começa a escrever O Arco de Sant'Ana. O triunfo liberal permite-lhe iniciar uma carreira diplomática, no qual se destaca como orador e onde chega a deter a pasta dos Negócios Estrangeiros, mas nunca deixa de ser um "dandy", orgulhoso daquela vaidade escancarada e prazenteira. Essa será uma das imagens de marca na composição da personalidade de João Baptista.
Apesar de ter sido um orador invulgar, é através dos escritos literários que hoje permanece viva a memória de Almeida Garrett. Escreveu muito, e em todos os géneros. Nem sempre bem, e há quem não reconheça especial qualidade à sua poesia, onde se incluem Folhas Caídas ou a Lírica de João Mínimo.
Quanto à prosa, existem ideias mais firmes acerca das qualidades intrínsecas do seu trabalho, mas é possível encontrar na Internet, no "site" do Projecto Vercial - considerado a maior base de dados sobre a língua portuguesa -, uma folha intitulada Garrett ou a Prosa do Fútil, em que o autor considera as Viagens na Minha Terra como um texto desinteressante, enfadonho e completamente desajustado dos interesses de leitura dos jovens estudantes do ensino secundário.
Osvaldo Silvestre reconhece que as Viagens… podem ser "um texto muito puxado para aqueles jovens, porque reúne uma grande divagação de referências culturais". Contudo, é uma obra estudada por alunos que já fizeram a opção de seguir os estudos de Língua Portuguesa a um nível mais aprofundado. Se assim é, será suposto terem maior disponibilidade para entrar em mundos literários diversos, eventualmente menos acessíveis mas essenciais para a compreensão da cultura portuguesa. Para Osvaldo Silvestre, "a escolaridade implica a leitura das grandes obras que configuram a nossa identidade. A didáctica não tem de ser apenas sedução".
Além disso, a obra apresenta grandes inovações no plano estilístico. É ali que se cria um português normalizado, e esse é um aspecto fulcral. Garrett funciona, no plano político, como ideólogo da burguesia ascendente e transporta essa atitude para a área linguística, uma vez que a grande aspiração burguesa era acabar com a estratificação do português.
Na opinião de Osvaldo Silvestre, João Baptista, através das Viagens…, "é o criador da moderna prosa literária portuguesa. Rejeita os arcaísmos, os tipicismos linguísticos. Esta revolução, iniciada por Garrett e continuada por Eça, transforma-se na forma corrente de escrever em português".
Os adolescentes obrigados a estudar as Viagens… criticam sobretudo a primeira parte da obra, como se torna visível num breve contacto com alunos de uma turma do 11º ano de Humanidades da Escola José Macedo Fragateiro, de Ovar. João, 17 anos, confessa ter estado quase a desistir durante a leitura do percurso até Santarém: "Depois tudo muda e é interessante, porque é mais directo que Camões. Há também um carácter teatral que torna a leitura muito viva". Alexandra, 16 anos, não gosta: "Não se adequa aos nossos tempos. No início, as aulas são uma seca, e só depois fica mais acessível". Sofia, 16 anos, acha Garrett "muito popular na lírica" e gostou de o ler, porque "demonstra coisas que as pessoas ainda sentem". Helena, 16 anos, fala de "uma revolta contra o sistema". A professora de todos eles, Rosário Costa Leite, reconhece a necessidade de um grande esforço de contextualização para que a obra possa ser melhor apreendida: "Há em geral uma reacção má à primeira parte, que é rapidamente ultrapassada".
Almeida Garrett morreu em Lisboa a 9 de Dezembro de 1854. Passaram duzentos anos desde o seu nascimento. O tempo é de celebração, mas persiste a mágoa de constatar como as livrarias portuguesas não têm as suas obras. As Viagens na Minha Terra, Frei Luís de Sousa e Folhas Caídas são as mais popularizadas, mas mesmo essas aparecem em edições pouco cuidadas. Do resto da obra, quase não há notícia. Anuncia-se agora uma série de projectos de divulgação, mas persiste outra lacuna: são escassos os estudos aprofundados sobre a criação literária, jornalística ou até discursiva de Almeida Garrett, pese embora toda a sua influência na cultura portuguesa.
José Carlos Seabra Pereira, professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras de Coimbra, comenta essa influência ao afirmar que Garrett é, no período entre os últimos vinte anos do século XIX e os primeiros trinta do século XX, "muito referenciado, mas quase nunca por aquilo que hoje valorizamos nele como autor moderno. Tirando Eça, como seu herdeiro, o aspecto da visão irónica da realidade, o regime irónico do pensamento, a forma irónica de expressão, de que ele é o primeiro exemplo e grande mestre, não é o que naquele período é captado e referenciado".
Talvez por isso, é venerado por correntes neo-românticas tradicionalistas. Ideologicamente conservadoras ou não, vêm nele o redescobridor do espírito de nacionalidade. "Por um lado vai à Idade Média, e por outro lado à cultura popular, buscar as manifestações genuínas desse espírito de nacionalidade", diz Seabra Pereira. Os neo-românticos do final do século - numa mescla em que se insere um grande criador poético, como António Nobre, ou poetas medíocres mas doutrinadores influentes, como Alberto Oliveira - lançam o movimento do neo-garrettismo.
Na opinião de Seabra Pereira, "têm razão em louvar a matriz desse reencontro com as fontes tradicionais do espírito da nacionalidade, do que seria uma forma de sentir e uma visão do mundo própria da alma portuguesa, mas deixam cair o que em Garrett, como nos melhores românticos europeus, fazia com que, nem o medievalismo, nem o popularismo cultural fossem uma forma de fuga fantasista ou passadista, mas uma inspiração para intervir no presente".
No início do século XX, apesar da erupção do Orpheu, a literatura predominante é neo-romântica e não modernista. As suas personagens e ele próprio tornam-se motivo de criações poéticas, narrativas e dramáticas. Teixeira de Pascoaes começa por olhá-lo com reserva, mas os neo-românticos vitalistas e jacobinos, como João de Barros, louvavam nele o mestre de uma versão liberal do nacionalismo cultural.
Os neo-românticos lusitanistas, em especial Afonso Lopes Vieira e António Sardinha, são quem mais valoriza o criador de Joaninha, mas no sentido tradicional. "Todas estas correntes valorizam nele um mestre do rejuvenescimento da língua dentro da fidelidade ao espírito da nacionalidade, e o criador da prosa literária numa nova linguagem", afirma Seabra Pereira.
Talvez por isso é tão insignificante a presença de Garrett no movimento de Orpheu. Fernando Pessoa poucas vezes se lhe refere, e na discussão modernista não aparece uma consciência explícita da percursora faceta de modernidade discursiva de Garrett. "O nosso primeiro modernismo desencontra-se com o que há de mais moderno em Garrett, que seria a questão da ironia e da renovação linguística", conclui Seabra Pereira.
Há ainda muitas portas por abrir no estudo da obra e da intervenção cívica e política de Garrett. Todos o nomeiam, mas nem todos o conhecerão bem. Apetece parafraseá-lo e perguntar, como Jorge Coutinho, no Frei Luís de Sousa: Garrett, quem és tu? Com a certeza de que a resposta de quem conseguiu ser espelho do seu tempo jamais poderá ser: Ninguém!
Texto de Valdemar Cruz
A Vida e o Tempo
- 1799: Nasce no Porto, a 4 de Fevereiro, João Baptista da Silva Leitão, mais tarde Almeida Garrett;
- 1804: Napoleão é coroado Imperador, em Paris, pelo Papa Pio VII;
- 1808: Goethe publica a primeira parte do seu drama em verso, Fausto;
- 1809: Desastre da Ponte das Barcas, no Porto;
- 1810: Nasce Alexandre Herculano, autor de Eurico, o Presbítero, O Bobo, O Monge de Cister e outros;
- 1812: Os irmãos Grimm iniciam a publicação da sua colecção de contos;
- 1815: Insurreição sérvia contra o domínio otomano; autonomia da Sérvia;
- 1816: Garrett matricula-se na Faculdade Jurídica de Coimbra;
- 1818: Nasce o filósofo alemão Karl Marx, que estabeleceria as bases do materialismo histórico, sobretudo em As Teses de Fuerbach;
- 1820: A 24 de Agosto triunfa a Revolução Liberal, iniciada no Porto, com participação activa de Garrett;
- 1821: No Teatro do Bairro Alto é apresentada, a 29 de Setembro, a tragédia Catão; nessa noite, Garrett conhece a sua futura mulher, Luísa Midosi, com quem casará no ano seguinte;
- 1823: Garrett conhece o seu primeiro exílio em Inglaterra; viaja no paquete "Duque de Kent";
- 1824: Conclui em França o poema Camões, considerado, com Dona Branca (1826), responsável pela introdução do Romantismo em Portugal;
- 1826: Morre D. João VI; Portugal divide-se entre liberais (partidários de D. Pedro) e absolutistas (partidários de D. Miguel);
- 1827: Beethoven morre em Viena;
- 1828: Nasce o novelista russo Leon Tolstoi, autor de Anna Karenina;
- 1829: Publica-se em Londres a Lírica de João Mínimo;
- 1831: Victor Hugo escreve O Corcunda de Notre-Dame;
- 1832: A 8 de Julho dá-se o desembarque no Mindelo das tropas comandados por D. Pedro; dias depois, Garrett, aquartelado no Convento dos Grilos, no Porto, começa a escrever O Arco de Sant'Ana;
- 1836: Por iniciativa de Garrett é criado o Conservatório Real e o Teatro Nacional D. Maria II;
- 1837: Samuel Morse inventa o telégrafo;
- 1838: É abolida a escravatura nas colónias britânicas;
- 1839: Nasce, no Porto, Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que adoptará o pseudónimo de Júlio Dinis;
- 1843: Primeira apresentação de Frei Luís de Sousa, em Lisboa; Garrett começa a escrever as Viagens na Minha Terra;
- 1846: Revolta da Maria da Fonte (Abril/Maio); queda do Governo de Costa Cabral; início da Patuleia;
- 1848: É publicado o Manifesto Comunista, de Karl Marx;
- 1853: Garret publica as Folhas Caídas; Alexandre Dumas filho adapta para teatro a novela A Dama das Camélias; Verdi vê a representação em Paris e usa-a como base para a Traviata;
- 1854: No dia 9 de Dezembro, Almeida Garrett morre.



