Bocage
Características da poesia de Bocage
Neoclassicismo
- Natureza colorida e esplendorosa (Primavera e Verão), alegre e suave ("locus amoenus")
- Domínio da razão
- Uso da mitologia pagã
- Imitação dos clássicos greco-latinos
Romantismo
- Natureza sombria e melancólica (Outono e Inverno), agreste ("locus horrendus")
- Valorização do sentimento (predomínio da sensibilidade sobre a razão)
- Desespero, angústia, tristeza, gosto pelo fúnebre e nocturno
- Relações profundamente afectivas entre o Eu e a Natureza
- Linguagem nova que melhor traduza a força dos sentimentos, feita de: exclamações, vocativo, suspensões frásicas, etc.
Análise de poemas
Magro de olhos azuis, carão moreno
Aspectos biográficos:
- "em quem luz algum talento";
- "devoto incensador de mil deidades" - paganismo;
- "e somente no altar amando os frades" - anticlericalismo.
Aspectos psicológicos:
- inconstante;
- triste;
- propenso ao furor;
- propenso a paixões amorosas;
- anticlerical;
- Bebendo… veneno.
Estrutura interna:
- 1º. momento: 2 quadras, 1º. terceto;
- 2º. momento: 2º. terceto.
Esquema rimático:
- abba, abba, cdc, dcd
Tipos de rima:
- emparelhada (bb), interpolada (aa), cruzada (cdc, dcd);
- toda grave;
- rica: talento/pachorrento; pobre: a restante;
- consoante: toda.
Apenas vi do dia a luz brilhante
Aspectos biográficos:
- Nasceu em Setúbal;
- A mãe morre-lhe ainda jovem;
- Parte para a guerra;
- Exilado longe da pátria.
Aspectos psicológicos:
- Sanguíneo carácter;
- Desgosto;
- Deseja a morte;
- Desprendimento dos bens terrenos.
Estrutura interna:
- 1º. momento: 2 quadras, 1º. terceto;
- 2º. momento: 2º. terceto.
Esquema rimático:
- abba, abba, cdc, dcd
Tipos de rima:
- emparelhada (bb), interpolada (aa), cruzada (cdc, dcd);
- toda grave;
- rica: brilhante/instante; profundo/imundo; procura/sepultura; pobre: a restante;
- consoante: toda.
Olha Marília, as flautas dos pastores
Elementos da natureza:
- flautas dos pastores;
- o Tejo;
- as flores;
- as plantas;
- as borboletas;
- o arbusto;
- o rouxinol;
- a abelhinha.
Elementos seleccionados:
- presença de elementos humanos;
- rouxinol como elemento perturbador.
Qualidades da natureza:
- harmoniosa e luminosa: destaque para o convite ao amor.
Adjectivação:
- cadentes, ardentes, vagas, alegre, clara;
- Destaque para o sentimento do amor.
Pontuação:
- exclamações, interrogação;
- Destaque para a subjectividade.
Funções da linguagem:
- apelativa (predomínio), emotiva e poética: mensagem mais voltada para o destinatário; domínio do sentimento.
Construção do quadro:
- dinâmico, com evidência para as acções das pessoas, dos entes mitológicos e das aves.
Cenário:
- locus amoenus e leve presença do locus horrendus (o suspirar do rouxinol).
Recursos de estilo:
- Aliterações: repetição do plural, e do /s/ (v.11) a sugerir o ruído do esvoaçar da abelha;
- Personificações: do Tejo, dos Zéfiros, dos Amores, do rouxinol;
- Anáforas: Olha, Olha, Era, Era.
Elementos românticos:
- a natureza é um estado de alma, a pontuação subjectiva e livre, a presença do rouxinol e da noite, amor sensual.
Sentimentos:
- amor (mais sensual);
- alegria/tristeza;
- verbo ver - o amor nasce da visão e a presença da amada é necessária para que a natureza tenha valor para os amantes.
Sensações auditivas:
- flautas, soam, cadentes, suspira, sussurrando.
Sensações visuais:
- olha, sorrir-se, flores, Vê, borboletas de mil cores, planta, folhas, manhã
Sensações olfactivas:
- flores
"Vê como ali beijando-se os Amores/Incitam nossos ósculos ardentes" - o vocabulário escolhido sugere directamente erotismo.
Importuna Razão, não me persigas
Razão: "Importuna Razão;/ríspida voz que em vão murmura;/(Se a lei de Amor, se a força da ternura,)/Nem domas, nem contrastas, nem mitigas; Se acusas; Se (conhecendo o mal) não dás a cura, encher de pejo."
Amor: "a lei de Amor, a força da ternura; loucura; alma, frágil vítima; carpir, delirar, morrer; o meu desejo"
Vocabulário ligado à luta:
- Nem domas, nem contrastas, nem mitigas.
Sentimentos dominantes:
- Paixão;
- Impotência perante o Amor;
- Ciúme.
Expressividade da linguagem:
- Apóstrofe: Importuna Razão, não me persigas;
- Repetição anafórica: Se a lei de Amor, se a força da ternura/Nem domas, nem contrastas, nem mitigas;
- Gradação decrescente: Nem domas, nem contrastas, nem mitigas; a maldiga, a desdenhe;
- Gradação crescente: carpir, delirar, morrer;
- Anáfora: Se acusas os mortais, e os não abrigas,/Se (conhecendo o mal) não dás a cura;
- Expressividade dos verbos: Nem domas, nem contrastas, nem mitigas; carpir, delirar, morrer;
- Hipérbole: carpir, delirar, morrer;
- Adjectivação: Importuna, ríspida, frágil, injusta e vária.
Sobre estas duras, cavernosas fragas
Razão: "Razão feroz, o coração me indagas; De meus erros a sombra esclarecendo,/E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo; Mandas-me não amar; Dizes-me que sossegue"
Amor: "negras paixões n'alma fervendo; De agudas ânsias venenosas chagas; Cego; surdo; Solto gemidos, lágrimas derramo; eu ardo, eu amo; eu peno, eu morro."
Vocabulário ligado à luta: "negras paixões n'alma fervendo; Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo; Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro."
Sentimentos dominantes: Paixão avassaladora; Dor.
O locus horrendus, cenário apropriado ao estado de espírito: "Sobre estas duras, cavernosas fragas/Que o marinho furor vai carcomendo"
Expressividade da linguagem:
- Adjectivação: ingrata e dura, iroso, lânguida, cativo, ditoso;
- Verbos expressivos: Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo; Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
- Gradação crescente: Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo; Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
- Hipérbole: Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo; Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
- Repetição anafórica: Eu, eu, eu, eu; Eu, eu, eu, eu; ofensa/Ofensa; Paixão, paixão; Vê, vê, vê.
A frouxidão no amor é uma ofensa
Todo o poema expressa Amor.
Vocabulário ligado à luta: Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo; Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Sentimentos dominantes: Paixão, Dor pelo amor não correspondido com igual intensidade.
Expressividade da linguagem:
- Adjectivação: duras, cavernosas; marinho; negras; crespas; feroz; agudas; venenosas; Cego; surdo;
- Repetição anafórica: eu ardo, eu amo; eu peno, eu morro;
- Hipérbole: Me estão negras paixões n'alma fervendo; De agudas ânsias venenosas chagas; Mil objectos de horror co'a ideia eu corro, Solto gemidos, lágrimas derramo; eu ardo, eu amo; eu peno, eu morro;
- Gradação crescente: Solto gemidos, lágrimas derramo; eu ardo, eu amo; eu peno, eu morro;
- Apóstrofe: Razão feroz; Razão, de que me serve o teu socorro?
- Quiasmo: Solto gemidos, lágrimas derramo.
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Liberdade: influxo; não raia… a tua aurora?; Da santa redenção é vinda a hora; Oh! Venha… Oh! Venha; Eia! Acode ao mortal; Movam nossos grilhões tua piedade; Nosso númen tu és, e glória, e tudo; Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!
Despotismo: e trémulo descaia/Despotismo feroz, que nos devora!; nossos grilhões; frio e mudo,/Oculta o pátrio amor, torce a vontade,/E em fingir, por temor, empenha estudo;
Expressividade da linguagem:
- Adjectivação: triste, santa; trémulo, feroz, mortal, frio e mudo, pátrio;
- Interrogação: 1ª. estrofe;
- Exclamação: 2ª. e 4ª. estrofes;
- Interjeições: OH! Oh!, Eia!
- Apóstrofe: Liberdade, onde estás? Oh, liberdade!
- Repetição anafórica: Porque… porque;
- Rima: grave, consoante, rica "demora/aurora, hora/devora";
- Tom declamatório.
Elementos neoclássicos:
- Forma: sonetos, encara a Liberdade como deusa.
Elementos românticos:
- Valorização do sentimento (predomínio da sensibilidade sobre a razão);
- Linguagem nova que melhor traduz a força dos sentimentos, feita de exclamações, vocativo, suspensões frásicas, etc.
Liberdade querida e suspirada
Liberdade: querida e suspirada; mais serena; face amena; gentil, desterra a pena; Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,/Vem, oh consolação da humanidade; Dos céus descende, pois dos Céus és filha,/Mãe dos prazeres, doce Liberdade!
Despotismo: acérrimo; que geme e brada; esta alma infeliz jaz sepultada; grilhão da adversidade.
Expressividade da linguagem:
- Adjectivação: querida e suspirada; acérrimo; serena; sereno; amena; gentil; infeliz; imortal; doce;
- Comparação: mais serena,/Que o sereno clarão da madrugada!; Cujo semblante mais que os astros brilha;
- Repetição anafórica: Liberdade; serena/sereno; Vem/Vem…vem; Dos Céus/dos Céus;
- Uso do imperativo (Função Apelativa): Atende; desterra; vem; solta-me; descende;
- Apóstrofe: Liberdade; Vem, oh deusa imortal, vem maravilha; Vem, oh consolação da humanidade; Mãe dos prazeres, doce Liberdade!
- Exclamação: 1ª. e 4ª. estrofes
- Hipérbole: mais serena,/Que o sereno clarão da madrugada!; Em que esta alma infeliz jaz sepultada; deusa imortal; Cujo semblante mais que os astros brilha; pois dos Céus és filha;
- Rima: grave, consoante, rica "condena/serena; brada/sepultada; maravilha/brilha";
Elementos neoclássicos:
- Forma: soneto;
- encara a Liberdade como deusa.
Elementos românticos:
- Valorização do sentimento (predomínio da sensibilidade sobre a razão);
- Linguagem nova que melhor traduz a força dos sentimentos, feita de: exclamações, vocativo, suspensões frásicas, etc.
Oh retrato da Morte, oh Noite amiga
Testemunha: ocular
- Elementos: escuridão, agasalho, manto, dorme, escuridade, fantasmas, claridade, bandos.
Secretária: ouvido
- Elementos: pranto, os diga, ouve-os, piadores, clamores.
Os fantasmas ocupam o espaço da mente do sujeito poético, como as aves o espaço do ar; os mochos soltam uns sons estranhos e agoirentos.
A relação positiva entre o sujeito poético e a Noite deve-se ao estado de espírito daquele: desiludido e desesperado. Neste estado, só a Noite é o ambiente que se coaduna com a sua sensibilidade.
A substancia fónica do soneto:
- Aliterações: repetição do fonema /m/ (em todo o poema) a sugerir tristeza e angústia e do fonema /t/ (teu manto) a sugerir afirmação acentuada.
- Rimas: amiga/antiga; tanto/pranto; escuridade/claridade. Estes exemplos servem para salientar que as palavras que rimam partilham o seu sentido ou por semelhança ou por oposição. A rima não é apenas uma questão de ouvido, gera sentidos. Assim, a rima entre amiga e antiga serve para salientar a relação existente entre o sujeito poético e a Noite: uma relação prolongada no tempo. A rima entre tanto e pranto serve igualmente para realçar o prolongado sofrimento do poeta. A rima entre escuridade e claridade aproxima palavras de sentido oposto, mas ambas indicam dois elementos que são inimigos da luz, que se opõem à luz.
- Alternância de vogais abertas e fechadas: é evidente que o texto apresenta uma alternância entre vogais abertas e vogais fechadas: /ó/, /á/ e /ô/, /an/, /ão/ (vogal nasal e ditongo nasal). Tal alternância pode sugerir, por um lado, a vontade de conviver com a Noite e, por outro, o desespero; assim, a tonalidade do texto está de acordo com a sua temática.
- Ritmo: é dominantemente binário, quer porque alguns versos estão partidos em dois hemistíquios, quer porque há dois acentos dominantes na maior parte dos versos (decassílabos heróicos). São decassílabos sáficos os versos 4, 8 e 14, porque apresentam três acentos dominantes nas 4ª., 8ª. e l0ª. sílabas. O domínio do ritmo binário está de acordo com a presença de duas "personagens": o sujeito poético e a Noite. É mais lento nas quadras e mais rápido nos tercetos, de acordo com a intensidade dos apelos, menos fortes nas primeiras e mais fortes nos segundos.
A nível morfossintáctico:
- Funções da linguagem: predominam as funções emotiva e apelativa realizadas, respectivamente, nas exclamações, interjeições, 1ª. pessoa pronominal e verbal e nas formas verbais no imperativo.
- Classes de palavras: dominam os nomes abstractos, pois o discurso é muito subjectivo; há adjectivos antepostos e pospostos, ligados os primeiros à subjectividade e os segundos à objectividade.
- Verbos: salienta-se a frequência do imperativo, a traduzir os apelos do Poeta. Os outros encontram-se no presente do indicativo, indicando estados certos e permanentes.
- Subordinação: presente em força no soneto, ligando-o, neste aspecto, ao Neoclassicismo.
A nível semântico:
- Personificações: a Morte, a Noite e o Amor. Os dois primeiros elementos são os destinatários do Poeta, o terceiro torna presente a mitologia (Amor = Destino); há ainda a personificação dos fantasmas e dos mochos, pois se tornam a partir do 1º. terceto destinatários do sujeito poético.
- Apóstrofes: ligadas aos destinatários directos do Poeta.
- Comparação: "como eu": os mochos são inimigos da luz assim como o Poeta no estado em que se encontra.
- Anáfora: os dois versos finais iniciam-se pelo mesmo verbo, que traduz o desejo do sujeito poético, linha temática dominante.
Meu ser evaporei na lida insana
Vocabulário:
- passado: evaporei, arrastava, cria, sonhava, coube, sumiu, soube.
- presente/futuro: sucumbe, dana, roube, saiba.
- luz: sóis, dourava, luz, viver.
- sombra: abismo, sumiu, morte, morrer.
Divisão em partes:
- 1º. momento: as duas quadras, o primeiro terceto e o 1º. verso do segundo terceto;
- 2º. momento: de "Quando a morte" até ao fim.
A luz é símbolo da sedução das paixões. Luz está ligada à vida, vivida ao sabor das paixões; sombra está ligada à morte, pois, no fim da vida, reflectindo sobre a mesma, dá-se conta de que essa luz que o seduziu era falsa. Deseja a morte.
As formas verbais ligadas ao passado são acompanhadas pela 1ª. pessoa porque estão directamente ligadas aos passos que o sujeito poético deu. As formas verbais do presente/futuro aparecem na 3ª. pessoa porque exprimem o arrependimento no momento da reflexão; o sujeito poético evita referir a 1ª. pessoa por causa do seu desalento; é uma espécie de aniquilamento do eu para que obtenha a salvação.
Devem salientar-se:
- a aliteração dos fonemas /s/ e /p/; a primeira pode sugerir dissipação e a segunda o movimento agitado das paixões;
- a repetição da vogal aberta /á/, /é,/ a sugerir a sedução que as paixões exerciam sobre o Poeta;
- o ritmo binário pode também sugerir a correria louca do sujeito lírico em busca das paixões.
Relação de oposição, que se verifica no ritmo vivo/lento, no sentido: paixões/arrependimento.
Elementos neoclássicos: a forma poética (o soneto), palavras próximas do latim (insana, mísero, falaz), subordinação, eufemismo, apóstrofes, antítese.
Elementos pré-românticos: o tema do arrependimento, a subjectividade do discurso, a pontuação livre e expressiva.
Já sobre o coche de ébano estrelado
Caracterização da Natureza:
- Verbos: Jaz, adormeceu, não gorgeia, pia.
- Substantivos: bosque, Zéfiro, Tejo, areia, rouxinol, mocho.
- Adjectivos: deserto, abafado, lisa, mavioso, às trevas costumado.
- Ausência/Passividade dos elementos clássicos (2ª. quadra): Zéfio abafado; Tejo adormecido; o rouxinol não canta; o mocho não pia.
Isolamento do "eu do mundo e comprazimento nesse isolamento: ele está só, só ele não dorme e pede a morte.
Predomínio do desespero, angústia, tristeza, gosto pelo fúnebre e nocturno.
Pede a morte e consola-se por estar naquela natureza lúgubre, antecâmara da morte pela qual anseia.
Já Bocage não sou
Com base na leitura atenta do soneto, podemos afirmar que está presente, e dominante, a tendência Pré-Romântica.
É notório, ao longo do poema, um sentimento pessimista e derrotista, como podemos verificar logo nos primeiros versos: "Já Bocage não sou!… À cova escura/Meu estro vai parar desfeito em vento.". Daí concluimos que o sujeito lírico se enquadra num ambiente tipo locus horrendus, no qual, esse sujeito, em tom confessional e confidencial, revela-nos um quadro de sentimentos tumultuosos, cheios de agonia, próprios do sentir pré-romântico.
Este soneto evidencia um carácter autobiográfico e autocrítico. Primeiramente, o sujeito lírico é-nos dado a conhecer como: "Já Bocage não sou…", o que nos remete logo para a autobiografia e para a autocrítica. Ao assumir-se na primeira pessoa do singular, o "eu" lírico aponta para uma atitude confessional, que se vai tornando declamativa e com uma grande carga emocional, à medida que se percorre o texto.
Atentando nos seguintes versos: "Eu aos céus ultrajei…"; "… vã figura…", "… fez meu intento!"; "Outro Aretino fui!…/A Santidade manchei…", facilmente depreendemos que o sujeito lírico atribui críticas ao seu comportamento e à sua vida, como se estivesse a fazer o balanço final da sua existência.
O poema apresenta-nos uma temporalização que assenta num esquema bipolarizado entre um passado de desafio e ultraje e um presente de desalento e morte.
Seguindo a incursão crítica ao passado e atentando nos versos: "Eu aos céus ultrajei…" ; "… vã figura/… fez meu louco intento!"; "Tivera algum merecimento/se um raio da razão seguisse pura!"; "Que atrás do som fantástico corria"; "Outro Aretino fui… A Santidade manchei…", notamos um evidente inconformismo perante os excessos praticados e os erros cometidos, predominando um sentimento de arrependimento da vida passada. No respeitante ao presente, o sujeito lírico assume as agonias do seu trânsito final: "Já Bocage não sou!… À cova escura/Meu estro vai parar desfeito em vento".
O estado de espírito apresentado remete-nos para o reconhecimento do mal feito: "Conheço agora já quão vã figura/Em prosa e em verso fez meu louco intento!" e, por conseguinte, do arrependimento de tais actos: "Eu me arrependo…".
Em suma, concluimos que Bocage, nesta fase terminal da sua vida, reconcilia-se com os valores morais e sociais que sempre criticou e que lhe causaram tormento e infelicidade.
O presente prenuncia, negativamente, o futuro quer do sujeito lírico "Bocage" quer da sua obra. Adivinha-se a morte física do poeta em: "… À cova escura/Meu estro vai parar…"; "… O meu tormento/Leve me torne… a terra dura"; "… a língua quase fria/Brade…". Contudo a perspectiva de continuidade está presente em: "… crê na Eternidade", não sabemos se da vida, se da sua obra, apesar do imperativo: "Rasga meus versos…".
Em conclusão podemos afirmar que Bocage, neste soneto, pretende mostrar-nos como foi o seu carácter, que percurso fez e que juízo final apresenta de si próprio.
Manuel Maria Barbosa du Bocage cultivou, num período menos conturbado da sua vida, a chamada poesia neoclássica, como pudemos observar aquando da análise do soneto: "Olha, Marília, as flautas dos pastores".
Esta tendência literária primava pelo enquadramento do sujeito lírico num ambiente harmonioso, o chamado locus amoenus, no qual se apregoava a beleza da natureza em todas as suas manifestações.
Os poetas neoclássicos "herdaram" esse gosto pela beleza e pela harmonia da natureza dos poetas latinos, que tanto amavam e pretendiam imitar, procurando dar à poesia o estatuto de verdadeiro deleite e prazer do homem, cultivando a arte da escrita como a representação do real (mimesis).
A Mitologia Pagã, crença religiosa dos clássicos, é adoptada pelos neoclássicos de forma alegórica, de modo a tornar os textos mais próximos da fonte de inspiração clássica.
Assim, nos textos neoclássicos, vamos confrontar-nos com ambientes bucólicos, harmoniosos, maravilhosos, cheios de sensações e sonoridades, que em conjunto formam um quadro de luz, som e cor.



