O Barroco
Contexto Histórico - Sócio-Cultural
O Domínio Filipino e as Desilusões da Nobreza
Nos primeiros quarenta anos do domínio filipino, a união das coroas permitiu vencer a crise financeira em que Alcácer Quibir e a conjuntura de então lançara a nobreza portuguesa, pois os Estados reforçaram-se mutuamente quanto a segurança e finanças públicas. Além disso, essa união abria aos fidalgos e cavaleiros portugueses perspectivas de ascensão e melhoria de estado graças aos campos de serviço em grande parte da Europa - e muitos não deixaram de as aproveitar. Continuarão vários deles, consumado 1640, a servir o monarca espanhol, e mesmo para Espanha fugirão ainda outros nessa altura. Por outro lado, todavia, o prosseguimento do regime filipino não pôde deixar de trazer amargas desilusões a vários nobres: a corte nunca chegou a estanciar duradouramente em Lisboa, e portanto havia que ir a Madrid requerer mercês, buscar desagravos, apoiar pretensões; mais: a ausência de corte régia escamoteava uma boa parte da existência fidalga e cavalheiresca, não permitia participar de perto na condução dos negócios públicos, anulava ensejos de convívio e ostentação, inibia actividades de criação literária, teatral e artística.
Mentalidade barroca, que anseia pelo fausto e pela exibição, nos círculos nobres como nos religiosos - uma religião de exuberância decorativa, aquietando-se nos ritos de subterrâneas inquietações, satisfazendo-se na exterioridade de uma insatisfeita interioridade. Religião em que a milícia de cruzada - sentido primitivo da Companhia de Jesus - cedeu o passo à sociedade organizada política e economicamente, transformada em potência que trafica na prata do Japão e seda da China e domina vastas áreas da América do Sul, Estado dentro do Estado. Ao mesmo tempo, todas as ordens religiosas multiplicam os seus institutos e enriquecem os seus bens, o peso da organização eclesiástica sobre a sociedade civil é cada vez maior.
A repressão do Estado e da Inquisição
Dominante, dentro da Península, o grupo senhorial monopoliza inteiramente o Estado, de que faz parte, coisa sua. O rei abandona o seu papel tradicional de árbitro entre as diversas forças nacionais. O Estado torna-se absorvente, destrói as minorias, sejam elas os lavradores vilãos e livres, os hebreus ou os "mouriscos", impõe uma vigorosa disciplina ideológica, esmagando todas as dissidências e oposições e regressando à ideologia tradicional da grande época do feudalismo. Quando estala a grande revolução da Reforma, os dois impérios da Espanha alinham decididamente, passadas as primeiras hesitações, ao lado dos que preconizam a restauração da igreja medieval, sem compromisso com os reformados. Com o agravamento das suas dificuldades aumenta inevitavelmente a repressão dos grupos dissidentes, cujas raízes, todavia, mergulhando nas novas condições económicas, não podiam ser destruídas.
Tudo quanto constituía apanágio do Humanismo, a humanização da religião, a divulgação directa da palavra evangélica, a reabilitação da natureza, a crítica anticlerical, foi reprimido pela censura inquisitorial portuguesa.
O Barroco na Literatura
Etimologicamente, a palavra "barroco" parece derivar do latim verruca, que significava, a princípio, pequena elevação de terreno e até qualquer excrescência ou mancha numa superfície lisa. Será, por isso, que nós temos com esse sentido, o vocábulo verruga. Do sentido lato, passou-se a um sentido mais restrito: determinadas imperfeições das pedras preciosas. No séc. XVI, chamavam-se barruecas e baroques as pérolas não redondas ou manchadas. No séc. XVII começou a utilizar-se a palavra baroque para significar qualquer coisa de forma irregular, bizarra; e, neste sentido, passou a qualificar determinada música e determinadas artes plásticas.
Foi Carducci quem, em 1860, empregou o adjectivo barroco para qualificar a literatura do séc. XVII. Desde então barroco passou a designar o estilo dos artistas e escritores de Seiscentos.
Este estilo veio da transformação dos valores formais do Renascimento. Em pleno séc. XVI, muitos escritores, saturados da imitação dos modelos clássicos, sem romperem definitivamente com eles, enveredaram por um caminho mais individual, com maior liberdade de imaginação. A este modo de escrever chamou-se Maneirismo.
A evolução para o exagero avoluma-se no séc. XVII, dando origem a uma literatura (e a uma arte) bem identificada e afastada do Classicismo primitivo. Para esta situação contribuiu muito o papel repressor da Inquisição. Sendo-lhes vedada a análise crítica da sociedade, os escritores refugiaram-se nos malabarismos dos jogos verbais.
Neste contexto, de crise de valores, nasceu uma literatura de evasão, tendencialmente pessimista, exageradamente formalista ou conceptualista.
Características Formais do Estilo Barroco
As três figuras retóricas dominantes
A metáfora é o instrumento privilegiado da expressão do ideal barroco de metamorfose, de transfiguração. É essencialmente através das metáforas que a poesia barroca cria um mundo transfigurado, idealizado, diferente do da realidade quotidiana, para deleite do leitor e glória do poeta, engenhoso criador dessas magníficas metamorfoses. É raro o aparecimento de metáforas isoladas. Elas aparecem geralmente em séries, despenham-se em cascata pelo poema numa redundância intensificadora, numa festa de imagens, de palavras.
Com a metáfora se articula directamente a hipérbole, que transfigura a realidade pelo recurso ao excesso. Na busca da expressão transfiguradora e excessiva o engenho barroco não conhece limites: para dizer "o brilho de uns olhos" não serve qualquer metáfora, por isso recorre à imagem do sol; mas a breve trecho tal metáfora revela-se insatisfatória e o poeta recorre à hipérbole e transforma esses olhos em focos de luz de que o sol é pobre satélite, recebendo deles a luz que por sua vez irradia.
A antítese exprime o conflito, o choque de contrários, ou a sua justaposição. Os efeitos desta figura nos textos barrocos vão desde o mero exercício lúdico de associação de antónimos à expressão de conflitos profundos que dividem a alma humana e fazem do homem inimigo de si próprio, à confissão da consciência da sua miséria perante a grandeza de Deus, à meditação amargurada perante a acção do tempo que transforma as coisas no seu contrário: a beleza em cinza, a grandeza em ruína, a vida em morte.
O Cultismo
Servindo-se de três artifícios: jogo de palavras, jogo de imagens, jogo de construções, o cultismo consiste no burilado excessivo da forma com o uso exagerado de trocadilhos, aliterações, homonímia, sinonímia, acumulações de epítetos, perífrases, extravagância de vocábulos, etc. Sob roupagens exageradas, esconde-se uma temática estéril e banal. Também se denomina este estilo de Gongorismo, designação proveniente do escritor espanhol Luís de Gôngora.
O Conceptismo
Servindo-se do desdobramento de um conceito, até se chegar, através de raciocínios engenhosos, a imprevistos paradoxos, o conceptismo consiste no jogo de ideias ou conceitos sob a forma de comparações ousadas, metáforas, imagens, sinédoques, hipérboles, etc., conducentes a uma densidade conceptual que obscurece o conteúdo.



