António Ferreira: Poesia

Dos mais fermosos olhos, mais fermoso
Rosto, que entre nós há, do mais divino
Lume, mais branca neve, ouro mais fino,
Mais doce fala, riso mais gracioso:

Dum Angélico ar, de um amoroso
Meneio, de um esprito peregrino
Se acendeu em mim o fogo, de que indino
Me sinto, e tanto mais assi ditoso.

Não cabe em mim tal bem-aventurança.
É pouco üa aima só, pouco üa vida,
Quem tivesse que dar mais a tal fogo!

Contente a alma dos olhos água lança
Pelo em si mais deter, mas é vencida
Do doce ardor, que não obedece a rogo.

Expressão da concepção petrarquista da mulher: a mulher do Renascimento, cantada por Petrarca, imitado por muitos poetas, é a mais bonita, a mais virtuosa, possui todas as virtudes de espírito e de beleza.

Elementos que contribuem para a descrição física:

Um retrato físico pode expressar não só características físicas, mas também psicológicas: "doce fala"; "riso mais gracioso".

Características psicológicas: "doce fala", "riso mais gracioso", "angélico ar", "amoroso meneio", "esprito peregrino".

Efeitos que essa beleza provocou no sujeito poético:

Forma: soneto: catorze versos distribuídos por duas quadras e dois tercetos; decassílabo.

Esquema rimático mais frequente: ABBA/ABBA/CDC/DCD.

Geralmente a 1.ª quadra apresenta o tema, a 2.ª desenvolve-o, o 1º. terceto confirma-o e o 2.º terceto conclui-o, sendo o último verso a "chave de ouro" ou seja a síntese de todo o conteúdo do poema.

Aquele claro sol, que me mostrava
O caminho do Céu mais chão, mais certo,
E com seu novo raio ao longe e ao perto
Toda a sombra mortal m'afugentava,

Deixou a prisão triste, em que cá estava.
Eu fiquei cego e só, co passo incerto,
perdido peregrino no deserto,
A que faltou a guia que o levava.

Assi co esprito triste, o juízo escuro,
Suas santas pisadas vou buscando,
Por vales e por campos e por montes.

Em toda a parte a vejo e a figuro.
Ela me toma a mão, e vai guiando.
E meus olhos a seguem, feitos fontes.

Estado de espírito do Sujeito Poético: cego; solitário: "só"; taciturno, abandonado: "passo incerto"; infeliz, atormentado: "Perdido peregrino no deserto"; triste: "esprito triste"; sem esperança, amargurado: "juízo escuro".

Razão desse estado: a amada morreu: "Deixou a prisão triste, em que cá estava".

Caracterização da amada: bela, loira: "Aquele claro sol"; bondosa, perfeita: "me mostrava/O caminho do Céu", "Suas santas pisadas".

Hiperbolização das lágrimas e do sofrimento: "Eu fiquei cego e só… feitos fontes" - ficou só, amargurado e desesperado e chora infinitamente a sua perda.

Expressividade da metáfora do último verso: expressa o estado de espírito do sujeito poético que, no seu enorme sofrimento, parece sempre ver a amada e chora-a infinitamente.

Antíteses: Mundo: sombra e prisão/Céu: sol e libertação; Solidão/Convivência; Realidade/Sonho.