Sá de Miranda

Perfil Biográfico

Nasceu em Coimbra, em 1481, tendo estudado Gramática, Retórica e Humanidades na Escola de Santa Cruz. Frequentou depois a Universidade, ao tempo estabelecida em Lisboa, onde fez o curso de leis, passando de aluno aplicado a professor considerado.

Frequentou nessa altura a Corte, datando-se de então a sua amizade com Bernardim Ribeiro. Para o Paço, compôs cantigas, vilancetes e esparsas, ao gosto dos poetas do século XV.

Tendo-lhe falecido o pai, parte, em 1521, para Itália. Graças a uma parente abastada, Vitória Colona, marquesa de Pescara, pôde conviver com algumas personalidades do Renascimento italiano, apreciando muito a estética literária que todos os humanistas cultivavam com entusiasmo.

Regressou a Portugal em 1526. De passagem pela Espanha, terá conhecido os poetas em voga, Boscán e Garcilaso, afadigados em introduzir a estética clássica no seu país.

Já se encontrava em Coimbra quando o rei D. João III residia, com a sua corte, naquela cidade, decidindo difundir também entre nós o novo estilo.

Casado antes de Maio de 1530 com D. Briolanja de Azevedo, da melhor fidalguia minhota, beneficiou da Comenda das Duas Igrejas, que o rei lhe concedeu. É na Quinta das Duas Igrejas, junto ao rio Neiva, que compõe quase toda a sua obra, em novos moldes, por influência da estética italiana.

O resto da sua vida passa-a na Quinta da Tapada, entregue ao amanho da terra e ao cultivo das letras. Aí lhe chegam os pedidos insistentes da Corte, sobretudo do príncipe D. João, pai de D. Sebastião, para que lhe envie as suas composições, o que o leva a refundi-las.

Os últimos anos foram amargurados por vários lutos: primeiro, a morte do filho em 1553; depois, a do príncipe D. João, a da sua mulher e a de D. João III.

Muito atento ao que se passava no seu país, as últimas composições estão repletas de comentários sociais e moralistas, bem amargos e pessimistas.

Sabe-se que em Maio de 1558 ainda era vivo, mas já então bastante enfermo, e deve ter falecido pouco depois.

Nos séculos XVI e XVII, foi o poeta mais admirado depois de Camões.

Perfil Poético

O Cancioneiro Geral encerra poesia palaciana de Sá de Miranda e é no verso tradicional que ele realiza o melhor da sua obra - as Cartas. Num esforço digno de elogio, este poeta, que filosofou com as musas e poetou com os filósofos, tentou as várias espécies e géneros que o Renascimento criara, ou restaurara do Classicismo.

Restaurou:

Tal como Camões vai também utlizar as formas tradicionais da Medida Velha:

Criou:

Mesmo quando adopta a nova escola, conserva o metro tradicional, que realiza com muito mais facilidade e perfeição. Mas se, no Cancioneiro, participa com poesias da velha escola, depois de regressar de Itália, compõe segundo os novos géneros, sem desprezar os anteriores.

Poesia

Comigo me desavim

Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia,
antes que esta assi crecesse;
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo
tamanho imigo de mim?
Tema: desconcerto de amor.
Assunto: o sujeito poético não consegue fugir aos seus sentimentos, há uma luta entre a razão e o coração.
Estado de espírito do sujeito poético: sente-se perdido, descontrolado, dividido.
Conceito de amor presente: fonte de sofrimento, de contradições, de insegurança.
Recursos estilísticos: antíteses.
Estrutura formal: Cantiga - composta por um mote de quatro versos que expõe o assunto do poema; a glosa - oito versos (oitava) - desenvolve-o; assunto quase exclusivamente amoroso.

Dezarrezoado amor dentro em meu peito

Dezarrezoado amor, dentro em meu peito
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força, faz, desfaz,
sem respeito nenhum, e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

Doutra parte a razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo: em fim vem o seu dia.

Então não tem lugar certo onde aguarde
amor; trata treições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?
Assunto: conflito entre o Amor e Razão (E1 vv.1,2).
Tema: a incapacidade do suj. lírico perante um amor abrasador (E4 v.3).
Palavras-chave do soneto: Amor e Razão.
Expressão textual que nos indica onde se passa esse conflito: E1 vv.1,2.
Esclarecimento da estratégia dos dois inimigos:
• Amor: irracional (E1 v.1); desfalecido/dorido (E1 vv.2,3); autoritário/anárquico (E1 vv.3,4); intolerante (E2 v.1); desrespeitador (E3 v.3) - o ritmo é mais nervoso, agitado = desconcentração/emoção.
• Razão: paciente/vigilante (E3 v.2); triunfal (E3 v.3); derrotada (E4 v.3) - o ritmo é mais lento = concentração / razão.
Conclusão: o Amor porque é mais impaciente, torna-se violento e destrói; a Razão porque é mais paciente, é ultrapassada e derrotada;
sujeito poético como observador (E4 v.3) ou como interveniente (E1 v.1);
Interpretação da citação "(…) e quando em paz/cuidais que sois, então tudo é desfeito." - o sujeito das formas verbais é o poeta ou um outro destinatário - a utilização da 2ª. pessoa do plural "cuidais" leva a pensar no destinatário desta mensagem: "cuidais" - vós? eu? - todos aqueles que amam desarrazoadamente.
Uso do presente do indicativo: desenvolver o tema do amor, leva-nos a pensar que a mensagem do texto é sempre actual/presente;
Sentido do último verso do poema: revela a impotência e a incapacidade do sujeito lírico perante o amor.

A este cantar de moças

Menina fermosa,
que nos meus olhos andais,
dizei porque mos quebrais.


Em vos vendo, vo-los dei:
logo vos passastes i;
nunca mais olhos abri,
nunca mais olhos çarrei.
Vós lhe sois regra, vós lei:
não fazem menos nem mais
daquilo que lhes mandais.

Em pago desta verdade,
que estranhais porque não se usa,
quebrais-mos… A alma confusa
não sabe quebrar vontade.
Menina, contra a idade,
contra todos os sinais,
cruel sois cada vez mais.

Tomais vingança da fé
que sempre convosco tive,
ou de quê? da alma que vive
por vós, onde quer que esté?
Dizei, menina, porqu'é?
Tam vossos olhos quebrais?
Não vo-los referto mais!
Aspectos a desenvolver Caracterização
Sujeito poético - diferentes estados psicológicos expressos apaixonado
(E1 vv.1,2, E4 vv.1,2)
subjugado/dominado
(E2 vv.5,6)
sofredor
(E3 v.7)
enfeitiçado
(E2 vv.3,4)
confuso
(E3 vv.3,4)
insistente
(E4 vv.5,6)
Mulher

caracterização física
caract. psicológica


bela/jovem (E1 v.1)
autoritária (E2 v.5) cruel (E3 v.7)
vingativa (E4 v.1) indiferente (E4 v.7)
Relação Homem/Mulher Amor "Eu" lírico - "Menina"
Indiferença "Menina" - "Eu" lírico (E4 vv.1,2)
A Temática - O conceito de amor implícito sofrimento amoroso causado por um amor não correspondido (E4 vv.1,2)