Gil Vicente
Origem do teatro
O homem sentiu desde sempre necessidade de exteriorizar os seus sentimentos e as suas sensações. Deste facto nasceram os actos lúdicos e a dança. Da mesma sorte, o homem descobriu que tem um espírito que sobrevive à morte do corpo. E nasceram os sacrifícios, rituais em honra dos mortos e dos deuses.
Às divindades egípcias Osíris e Hórus foram consagrados espectáculos com actores e coro. Mas é das celebrações em honra de Diónisos, filho de Zeus, que surgirá o teatro. Nas praças de Ática, reunia-se cada ano uma pequena multidão para participar na narração do suplício do deus que a mitologia diz ter sido assassinado pelos seus inimigos e ressuscitado pelo seu pai. Rapidamente, o recitante desta lenda se tornou actor. E da narração da lenda dionisíaca passou-se a outras narrações de factos da história da Grécia, ligados às forças divinas, num conflito entre o homem e os deuses. Tal conflito gera a tragédia, dominada pela fatalidade a que os humanos não podem fugir.
A primeira tragédia conhecida intitula-se As Suplicantes, de Ésquilo, representada entre 484 a 460 a.C. A comédia deve ter origem nas várias festas populares em honra do mesmo deus Diónisos. Aranianos (426 a.C.) é a comédia mais antiga de Aristófanes, o melhor cultor grego desta espécie teatral.
Téspis foi o primeiro actor grego que representou num estrado elevado acima do solo.
Teatro Português Pré-Vicentino
Gil Vicente foi o primeiro dramaturgo português que deu consistência literária às representações teatrais que, desde séculos, proliferaram e que se podem agrupar em duas grandes classes: o teatro religioso e o teatro profano. Eis em resumo as principais modalidades teatrais pré-vicentinas de que se tem conhecimento.
Teatro Religioso, séc. XIII a séc. XV
- mistérios - representações tendo por assunto o Natal, a Paixão e a Ressurreição de Jesus;
- laudes - cânticos de louvor recitados e representados pelos frades e pelo povo;
- milagres - representações cujo tema principal era a vida de um santo;
- moralidades - peças de intenção didáctica empregando figuras alegóricas.
Teatro Profano, séc. XIII a séc. XV
- momos e entremezes - representações em que os homens se disfarçam de animais; nelas participaram fidalgos e até o próprio rei;
- sotias - cenas breves representadas por bobos, de feição geralmente política;
- farsas - representações dos defeitos e acontecimentos cómicos da vida com a intenção de crítica alegre;
- sermões burlescos - monólogos representados por jograis que, para o efeito, usavam vestes sacerdotais.
Teatro vicentino
Gil Vicente não se preocupa com as leis da estética clássica no tocante à acção, ao espaço e ao tempo. Está muito mais interessado em dar corpo ao princípio latino: "ridendo, castigat mores" (i.e., a rir, corrigem-se os costumes) e, por isso, faz perpassar diante de nós toda uma sociedade quinhentista, sobretudo nos seus vícios, com o objectivo de moralizar e divertir. A sua carreira teve início em 1502 com a apresentação da peça Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação, para comemorar o nascimento do futuro rei D. João III, e terminou em 1536 com a representação da peça Floresta de Enganos.
Auto da Alma
Anjo
- Física:
- tem uma espada (l.83)
- Psicológica:
- Conselheiro (43-44; 50-53)
- Paciente (64-66)
- Humilde (88-91)
- Persistente (199-201)
- Compreensivo (206-208)
- Esperançoso (213-215)
- Preocupado (248; 274)
- Generoso (260-274)
- Solidário (331-342)
- Vigilante (253-263)
- Protector (265-273)
Alma
- Física:
- descalça; jovem (149-150; 221)
- mal vestida (221)
- brial-vestido (227)
- chapins-sapatos (234)
- colar (302)
- anéis (304)
- brincos (310)
- Psicológica:
- Fraca (71-73)
- Insegura (78-80)
- Ansiosa (85-88)
- Imprudente (248-249)
- Influenciável (248-249)
- Teimosa (248-249)
- Vaidosa e Fútil (316-319)
- Corruptível (316-319)
- Fantasiosa (317-319)
- Cansada (346-348; 431-432)
- Embaraçada (350-352)
- Arrependida (412-425)
- Pecadora (434-439)
- Desventurada (447-449)
- Triste (454)
- Resistente (495-499)
- Culpada (496)
- Reabilitada (499-505)
- Convertida (499-505)
- Crente (499-505)
1º. Diabo
- Psicológica:
- Adulador (141-142)
- Perigoso (151-154)
- Obstinado (165-166)
- Melífluo (195-198)
- Derrotista (220-222)
- Mundanal (240-246)
- Insidioso (279-316)
- Conflituoso (298-411)
- Impaciente (384-386)
- Oportunista (398-411)
- Derrotado (525)
- Desaforado (527-533)
- Sacrílego (553-562)
2º. Diabo
- Psicológica:
- Conformista (538-540)
- Desiludido (538-540)
- Esperançoso (538-540)
- Resignado (538-540)
- Paciente (550-552)
Santo Agostinho
- Psicológica:
- Humano (1-7)
- Estimulante (8-14)
- Benévolo (15-28)
- Condoído (29-42)
- Exortativo (576-589)
Igreja
- Física:
- Mesa-altar, Cadeira, Mantimentos, Bacios - Pratos (Didascália entre os versos 575-576)
- Verónica - toalha (Didascália entre os versos 734-735)
- Psicológica:
- Condoída (429-430)
- Compreensiva (506-509)
- Solidária (510-514)
- Benévola (515-516)
- Misericordiosa (517-523)
- Hospitaleira (590-599)
Cenas: Cenas limites (LL) tópicos
- (1-42) Monólogo de Santo Agostinho introdução ao contexto
- (43-87) Anjo Custódio e Alma
- (88-140) Anjo
- (141-198) Diabo e Alma
- (199-215) Anjo
- (216-276) Anjo, Diabo e Alma
- (277-316) Diabo e Alma
- (317-383) Anjo e Alma
- (384-425) Diabo e Alma
- (426-523) Anjo, Igreja e Alma
- (524-562) 1º. Diabo e 2º. Diabo
- (563-575) Alma
- (576-681) Alma, Santo Agostinho e Igreja
- (682-699) Alma, Santo Ambrósio e São Jerónimo
- (700-734) Alma, Santo Agostinho e Igreja
- (735-748) Alma, Igreja e São Jerónimo
- (749-762) Alma, São Jerónimo
- (763-776) Alma, Igreja e São Jerónimo
- (777-790) Alma, Anjo e Santo Agostinho
- (790-804) Alma, Igreja e São Jerónimo
- (805-825) Alma e Santo Agostinho
Auto da Índia
Ama
- Adultério - "i se vai… d' esperar" (ll.78-82)
- Ambição - "Porém… mui rico" (l.511)
- Artifício - Enganando os dois amantes ao mesmo tempo (ll.249-255)
- Hipocrisia - " mostra-m'… sem ceitil" (ll.60-64)
- Insatisfação - "Arreceo… de mim" (ll.26-34)
- Laconismo - "Se vós… nós?" (ll.161-162)
- Mentira - Com o Castelhano, com Lemos, com o Marido
Moça
- Troça - "Bem sei… embora" (ll.118-122)
- Esperteza - "dai-me… trouxer" (ll.47-51)
- Honestidade - "Ali eramá… panos" (ll.64-67)
- Ironia - "Virtuosa… dó" (ll.55-56)
- Sensatez - Quando não se confronta com a Ama, mas não deixa de criticar o que esta faz
- Recatamento - Perante toda a situação, mantêm-se honesta e recatada
Castelhano
- Conquista - "Vengo… el diablo" (ll.102-116)
- Exagero - todo o seu discurso
- Fanfarronice - "Asosiega… santa" (ll.322-334)
- Ridículo - "Y aún… viniere" (ll.335-344)
- Pobreza - "aunque… em grueso" (ll.196-198)
- Conquista - "Mas… emperadora" (l.231)
Lemos
- Fanfarronice - " Vá… gastar" (ll.271-273)
- Galanteria - "Vosso… senhora" (l.228)
- Pelintrice - "Dá… emproviso" (ll.275-290)
- Oportunismo - "Como… vesitará" (ll.221-223)
Marido
- Ambição - "pera… canela" (ll.30-31)
- Insensatez - deixar a mulher só para ir em busca de fortuna
- Mediocridade - "Se nam… certifico" (ll.512-514)
- Contenta-se com pouco depois de todos os perigos que passou
Registo do tempo da acção
- Partida da armada "que agora vai em dous anos/… e logo partiu a armada/domingo de madrugada" (ll.365-369)
- "Três anos há/que partiu Tristão da Cunha" (ll.374-375)
- Dia em que o Marido regressa da Índia "A Garça em que ele ia/vem com mui grande alegria" (ll.397-398)
Concretização da crítica
A crítica no Auto da Índia concretiza-se através de:
- Apartes (ditos para serem ouvidos/lidos pelo público mas não pelos visados) e Ironia (quando se diz o contrário do que as palavras querem dizer)
- Ex.: Da Moça que denunciam o comportamento da Ama (ll.55-56, 70-74, 244, 360-362)
- Utilização de personagens-tipo (que representam uma classe ou grupo social)
- Ex.: Ama (a Ama evolui um pouco pois vai da ruptura da instituição "casamento" até à sua aceitação, quando o Marido volta), Lemos, Castelhano, Marido.
- Desmistificação da espiritualidade petrarquista do amor
- Ex.: Ridicularização do discurso idealista do Castelhano (que não resiste à chacota e ao materialismo da Ama).
- Desconsideração de instituições
- Ex.: Como o casamento, a fidelidade e o amor conjugais.
- Rebaixamento da importância, mérito ou interesse dos Descobrimentos e do comércio oriental
- Ex.: A Índia serve, segundo o Castelhano, para tornar possível o seu encontro com a Ama (LL 133-136);
- O Marido descreve o comércio oriental como "Pelejámos e roubámos" (LL 476-477).
- Contraste de figuras e situações
- Ex.: Honestidade da Moça/Depravação da Ama
- Dissimulação da Ama/Ingenuidade do Marido
- Materialismo e Oportunismo de Lemos/Idealismo e Fanfarronice do Castelhano.
Cómico
- Linguagem (utilização de vários tipos de linguagem para provocar a hilariedade)
- Ex.: Discurso do Castelhano, cheio de trocadilhos e paradoxos (ll.102-201, 300-348)
- Situação (resulta da situação em que as personagens se inserem ou das circunstâncias por elas desencadeadas)
- Ex.: Cena dos amantes, com o Castelhano atirando pedrinhas à janela e produzindo ameaÁas impotentes e o Lemos enganado e escondido para salvar as aparÍncias (ll.249-362)
- Carácter (tem directamente a ver com a "personalidade" das personagens)
- Ex.: A Ama adúltera e hipócrita, fingindo ciúmes e enganando um Marido ingénuo (ll.384-505);
- O Castelhano, pelo seu idealismo incorrigível e tendÍncia para o exagero (ll.102-201);
- O Marido (em certa medida), na cena final, pela sua quase ilimitada credulidade.
Farsa de Inês Pereira
Caracterizacão das personagens
- Inês: moça do povo ambiciosa que deseja ascender socialmente
- solteira: alegre, preguiçosa, leviana, só pensa em casar, teimosa, ambiciosa, insensata, fantasiosa, sabida, resmungona
- casada com o Escudeiro: engaiolada, não ri, não pode falar, nem ir à janela, aceita a situação pois reconhece a culpa, desencantada, arrependida
- casada com Pêro Marques: vingativa, infiel, fingida
- Mãe: mulher do povo
- confidente, conselheira, amiga, compreensiva, sincera, realista, conformista, resmungona
- Lianor Vaz: alcoviteira (casamenteira)
- honesta, amiga, conselheira, desinteressada, persistente, sincera
- Judeus: alcoviteiros (casamenteiros)
- desonestos, interesseiros, falsos/mentirosos, materialistas, aldrabões
- Pêro Marques: lavrador
- estúpido/parvo/ignorante, honesto, rico, bom marido, respeitador, rude/deselegante, generoso, ingénuo, obediente
- Escudeiro: baixa nobreza (fidalgo)
- antes de casar: gentil, interessado, bem falante, sabe tocar viola, vaidoso, esperto
- depois de casar: pelintra, desleal, mentiroso, autoritário, cruel, cobarde, egoísta
Personagens tipo:
- Inês: moça do povo ambiciosa
- Pêro Marques: pouca educação do homem do campo, o asno, o inadaptado à sociedade
- Escudeiro: a baixa nobreza em degradação: faminta e pelintra
- Lianor Vaz: alcoviteira
- Mãe: materialista, quer ver a filha bem arrumada, com estabilidade económica
- Judeus: mundo da aldrabice e do interesse monetário
- Ermitão: clero leviano que esquece os seus deveres e a sua moral
- Moço: classe servente (povo)
Cómicos
- Cómico de Carácter
- Ex.: concretiza-se nas figuras de Pêro Marques (provinciano e bronco nitidamente deslocado junto de Inês e da Mãe) e do Escudeiro pobre e cobarde mas dissimulando na elegância do seu discurso, na variedade das suas prendas (canta e toca) e na fanfarronice solene todas as suas fraquezas e misérias.
- Cómico de Situação
- Ex.: quando Pêro Marques se senta na cadeira ao contrário e de costas para Inês e para a Mãe (vv.288-91);
- na fala dos Judeus casamenteiros, que, na sua sofreguidão e calculismo para conseguirem casar Inês com o Escudeiro, se interrompem, repetem e atropelam constantemente (vv.423-64);
- no episódio final quando Pêro Marques, descalço, transporta Inês às costas, mais duas lousas que lhe agradam e para cúmulo, aceita cantar uma cantiga que o apelida de "marido cuco" (vv.1105-41).
- Cómico de Linguagem
- Ex.: quando Pêro Marques entra com a sua linguagem recheada de termos e expressões provincianas e sobretudo a sua pronúncia (vv.293-316);
- quando os Judeus produzem o seu discurso repetitivo e arrastado (vv.423-64);
- quando Inês se refere a Pêro Marques dizendo "Ei-lo se vem penteando/será com algum ancinho?" (vv.271-2);
- na ironia cáustica do Moço desmascarando a pelintrice do Escudeiro (vv.528-49).
- Ironia
- Ex.: no diálogo inicial entre Inês e a Mãe especialmente quando esta se refere à preguiça da filha (vv.39-42);
- no diálogo entre a Mãe e Lianor Vaz sobre um clérigo que queria ver se ela era macho ou fêmea (vv.73-90);
- na reacção de Inês à carta de Pêro Marques trazida por Lianor (vv.258-62);
- na maneira como Inês imagina Pêro Marques antes da sua apresentação (vv.265-72);
- em algumas falas dos Judeus (vv.454-5);
- nas respostas e apartes do Moço quando o Escudeiro o prepara para o encontro com Inês e durante este (vv.524-606);
- na reacção da Mãe à apresentação do Escudeiro (vv.627-8);
- nas respostas do Moço quando o Escudeiro o encarrega de tomar conta de Inês durante a sua ausência (vv.824-32);
- na fala de Inês, fechada, tecendo considerações sobre a sua situação e o comportamento do marido (vv.858-66);
- quando Inês recebe a carta de Arzila (vv.899-927);
- no diálogo com Lianor Vaz logo após a sua viuvez, fingindo ter sentido a morte do marido (vv.950-2).
Quem Tem Farelos?
Apariço e Ordonho, dois moços ao serviço de dois escudeiros pobres mas pretenciosos e fanfarrões, encontram-se e dialogam sobre a sua miserável situação, a personalidade e o modo de vida dos seus amos. O Escudeiro entretanto ensaia as torvas que, de seguida, irá cantar à sua amada. O quadro seguinte mostra o Escudeiro, na rua, faz uma serenata em frente da casa de Isabel, sua apaixonada. Os moços troçam e os seus comentários denunciam a pelintrice do escudeiro. Isabel vem à janela e fala ao Escudeiro. O público só ouve o que este diz, tendo de deduzir as palavras dela. Os cães, os gatos e os galos dificultam a comunicação. Tanto o ruído dos animais como os comentários do moço sobre as mentiras do Escudeiro são geradores de cómico e contribuem para o seu desmascaramento. A mãe de Isabel, que estava na cama, levanta-se e, enfurecida, amaldiçoa e insulta o Escudeiro. Este continua a cantar, sem reagir, e depois vai embora. A mãe e a filha acabam por discutir por causa da confiança que esta deu ao escudeiro. O conflito resulta da diferença de mentalidades, autêntico conflito de gerações.
Caracterizacão das personagens
- O Escudeiro (Aires Rosado): mentiroso, pelintra, pretencioso, cobarde, falso e amador de música e da poesia. Conquistador apaixonado, passivo e ingénuo, indiferente ás pragas e insultos que a velha lhe dirige. Depois da serenata retira-se sob uma chuva de maldições, frustrado e triste.
- Os moços Apariço e Ordonho: têm a função de desmistificar a personagem do Escudeiro, seja no diálogo entre si, referindo a vida miserável que levam por causa da sua pobreza, seja nos apartes que desmentem e ridicularizam o amo no diálogo com Isabel. Todavia, apesar de muito criticarem os amos, também nada fazem para mudar a sua situação de penúria. Vivem mal, consideram-se mal pagos, mas não mudam de vida. Apesar de famélicos, talvez lhes agrade uma vida de indigência. Nesse aspecto documentam a preguiça e o parasitismo da época trazidos pela expansão e pela ascensão da burguesia.
- Isabel: a clara definição do seu carácter está prejudicada pelo facto de não ser ouvida. É leviana, pois vem falar altas horas da noite com o escudeiro; vaidosa, pintando o rosto e estudando um andar provocante; preguiçosa, não quer exercer nenhum dos ofícios que então eram próprios das mulheres; independente e impúdica, não se importa com o que possa dizer a vizinhança; trocista, ri-se do escudeiro, primeiro dizendo que ele podia ser atacado e depois imputando-lhe a responsabilidade do perigo que corre a sua honra (dela); falsa e fingida, não pretende o escudeiro para marido, enganando-o com vãs esperanças e também porque quer aprender a fingir; eloquente, parece ter uns pozinhos de cultura, de tal forma que a mãe lhe chama bacharel, quer aprender as regras da boa conversação e está actualizada qunto às ideias religiosas.
- Velha: crendeira, supersticiosa, declama mecanicamente fórmulas religiosas, cita erradamente nomes bíblicos. Importa-se mais com as aparências e a opinião dos outros do que com a própria consciência e intenção. Desconfia de toda a actividade que não é imediatamente lucrativa e é materialista. Defende a submissão total dos filhos a seus pais, elogia as actividades mesteirais e não concebe que as raparigas possam dedicar-se a trabalhos que não sejam os caseiros.
Espaço
A acção desenrola-se em vários lugares: na rua; em casa do Escudeiro; na rua, em frente da casa de Isabel; na casa de Isabel.
Crítica
- Cómico de liguagem: visível na fala da Velha quando dirige ao Escudeiro uma torrente de pragas e maldições, enquanto este continua a cantar e na utilização do castelhano nas cantigas que dirige a Isabel.
- Cómico de situação: nos apartes de Apariço que anulam o discurso de promoção pessoal empreendido pelo Escudeiro; na utlização de ruídos (cães, gatos e galos, que dificultam a comunicação e constituem o contraponto ridículo da serenata, anulando toda a sua serenidade; o Escudeiro canta e fala da rua para Isabel, que está à janela, e o público só ouve o discurso dele e apenas pode deduzir o dela.
- Cómico de carácter: incide sobre a personagem de Aires Rosado sobretudo quando lê o seu cancioneiro e se prepara para a serenata, no arrebatamento injustificado do seu canto e na impassibilidade face ao chorrilho de pragas e maldições da Velha. O rídiculo de Aires Rosado advém, em grande parte, dos comentários dos moços, especialmente os apartes de Apariço, que desmistificam toda a sua basófia e pretensão.
Auto da Barca do Inferno
Pondo na praia do Purgatório duas barcas, uma com arrais para o Paraíso e outra com arrais para o Inferno, Gil Vicente faz chegar a essa praia, um a um, num desfile trágico, de suspense, vários tipos sociais em trânsito para o seu destino, que todos crêem ser o Paraíso. 0 trágico está, porém, em que, pelo contrário, o destino que lhes está reservado é o do Inferno.
Assiste-se então - e nisso reside a força dramática do auto - ao desmontar da vida de cada um, pela análise do mérito das acções cometidas, através do despique dialéctico entre culpados (os viajantes) e os julgadores (os arrais), o qual termina com o embarque na barca do Inferno. Porque as personagens, como tipos que são, permanecem fiéis a si próprias, mesmo perante a decepção de lhes ter saído errado o cálculo feito, aceitando a entrada na barca do Inferno sem evidente arrependimento (apenas o Fidalgo e o Onzeneiro têm um rebate de consciência), o drama não existe nelas, mas antes em nós como assistentes do seu destino irremediável.
Na barca do Paraíso apenas entram, sem qualquer julgamento, quatro cavaleiros mortos nas pelejas de África, redimidos pela sua própria morte. Também entra o Parvo, após algum tempo de espera na praia (Purgatório), porque, como pobre de espírito, será dele o reino dos Céus. 0 Judeu, errante por maldição, não fica em parte alguma. Irá à toa, diz-lhe o Diabo, como em toda a sua vida, entende-se.
Está-se, assim, em presença de um argumento, ou estrutura dramática, linear, de tipo repetitivo, sem desenvolvimento progressivo, do qual resulta uma acção tendencialmente monótona, que deverá ter um tratamento teatral especial que lhe quebre a uniformidade e enriqueça. É, pois, na arquitectura cénica, mais que no contexto dramático, que sobretudo reside o interesse deste auto. Pode, assim, ser avaliada a mestria de Gil Vicente como homem de teatro, na utilização de recursos de que sabia valer-se para a resolução dos problemas postos ou para provocar adesão nos espectadores.
Personagens que entram na Barca do Inferno
- Fidalgo: fora soberbo e tirano com o "pobre povo queixoso" e não fora generoso por desprezar os "pequenos".
- Onzeneiro: falecera no exercício da "safra do apanhar" do dinheiro próprio e alheio, obsessão maldita de que tinha o coração cheio.
- Sapateiro: não vivera direito, no exercício do seu mester, roubando na praça durante trinta anos o povo.
- Frade: fora "gentil padre mundanal", "devoto padre marido".
- Alcoviteira: vivera uma "santa vida", criando "as meninas para os cónegos da Sé" e para a prostituição, sem perda nenhuma, que "todas acharam dona".
- Judeu: comera "a carne da panela no dia de Nosso Senhor", não respeitara os mortos, sacrificara o Salvador e não contribuíra para o comércio do mar. Tão "mui ruim pessoa" que era, não foi dentro do batel, mas a reboque.
- Corregedor: roubara quando era ouvidor. como juiz , não aplicara a justiça de acordo com as leis, usando de malícia. Aceitara peitas dos judeus e explorara, sem os ouvir, os lavradores ignorantes. No Inferno estavam também os escrivães.
- Procurador: fora conivente com o corregedor nos roubos, ambos "filhos da ciência", cultos portanto.
Personagens que entram na Barca do Paraíso
- Os Cavaleiros: morreram pelejando por Cristo e "quem morre em tal peleja merece paz eternal".
- Parvo: nunca errara por malícia e a sua condição de pobre de espírito bastava para "gozar dos prazeres". Ficou, porém, a aguardar no cais a chegada dos cavaleiros.
Caracterizacão das personagens
- Fidalgo:
- Externa: pagem, cadeira senhorial, manto comprido
- Linguagem: altiva, petulante
- Comportamento: vaidoso, presunçoso, soberbo, opressor
- Onzeneiro:
- Externa: bolsão enorme
- Linguagem: vulgar
- Comportamento: avarento, usurário
- Parvo:
- Linguagem: chocarreira, desbragada
- Comportamento: cómico crítico, simples, ingénuo
- Sapateiro:
- Externa: avental, formas
- Linguagem: vulgar com ressaibos técnicos
- Comportamento: ladrão
- Frade:
- Externa: moça, broquel e espada, casco sob o capelo
- Linguagem: exuberante
- Comportamento: libertino, mundano, dançarino, esgrimista
- Alcoviteira:
- Externa: arcas, armários e cofres; moças várias
- Linguagem: melífula, dengosa
- Comportamento: inculcadeira
- Judeu:
- Externa: com um bode ás costas
- Linguagem: desbragada
- Comportamento: sacrílego
- Corregedor:
- Externa: carregado de processos, Vara da Justiça
- Linguagem: identificada com a profissão (vocabulário e latim tabeliónico)
- Comportamento: corrupto, parcial
- Procurador:
- Externa: carregado de livros
- Linguagem: vulgar
- Comportamento: atrevido, convencido
- Enforcado:
- Externa: com o baraço ao pescoço
- Linguagem: coloquial
- Comportamento: crédulo, ignorante
- Cavaleiros:
- Externa: Cruz de Cristo, espada e escudo
- Linguagem: peremptória
- Comportamento: decididos, seguros
- Diabo e companheiro:
- Linguagem: irónica, trocista, contundente, azeda, agressiva, mordaz
- Comportamento: acusador, juiz
- Anjo:
- Linguagem: incisiva, fria, justa, judiciosa
- Comportamento: acusador, juiz
O Auto da Barca do Inferno é exemplo acabado da sátira de Gil Vicente aos usos e (maus) costumes do seu tempo, em especial ao poder corruptor do dinheiro e ao desregramento sexual. Ele faz desfilar os representantes da nobreza, do clero, da magistratura, da burguesia e do povo com os seus vícios (e virtudes, alguns), perante o juízo do Anjo e do Diabo, que os vão condenando ou absolvendo, de acordo com o padrão oficial de conduta moral.
A nobreza é representada pelo Fidalgo (D. Anrique), em quem se satiriza a ostentação de grandeza, a soberba presunçosa e o desprezo pelos humildes.
O clero é representado pelo Frade (Frei Gabriel), criticado pela simonia e dissolução de costumes.
A magistratura é representada pelo Corregedor e pelo Procurador, cujas corrupção, venalidade e rapacidade são salientadas e tanto mais graves sendo eles filhos da ciência, isto é, homens cultos e responsáveis.
A burguesia comercial é representada pelo Onzeneiro, que usufrui de largos juros, arrancados aos necessitados: pelo Sapateiro (João Anão), que explora os fregueses com o seu comércio, e pela Alcoviteira (Brízida Vaz), traficante de carne branca e inculcadeira.
O povo é representado pelo Enforcado, que revela a ignorância e a credulidade manejável pelo Judeu (Jema Fará), que ninguém quer, e pelo criado do Fidalgo, a moça do Frade (Florença) e as moças da Alcoviteira, meros apêndices dos poderosos, sem voz e sem vontade, mais objectos que pessoas.
Ao Diabo cabe a dissecação das mazelas morais dos réus, como principal advogado de acusação. O contraste entre a sua intervenção e a do Anjo constitui também uma apreciação crítica profunda. Às instantes solicitações do Diabo para que entrem os passageiros na barca do Inferno (por si mesmos condenados) opõe o Anjo a recusa da entrada na barca da Glória. À argumentação do Diabo, que procura convencer a vontade, opõe-se a decisão irrevogável do Anjo, que a despreza.



