Contextualização
Condicionalismo Social e Cultural
A estrutura social na Idade Média resultou das formas feudais típicas de propriedade e de renda. Os senhores, dentro dos seus senhorios ("coutos", se pertenciam à Igreja, "honras", se à nobreza), detinham autoridade plena para todos os efeitos. Aí vivia uma população composta principalmente de servos obrigados ao pagamento de uma renda proporcional à produção do ano, a que havia ainda a acrescentar prestação de serviços e outros tributos vários.
Havia outro tipo de servos, mas em torno do paço ou solar, os laços para com o seu senhor mostravam-se mais pessoais e os seus deveres relacionavam-se preferentemente com tarefas domésticas ou de artesanato.
Além dos servos, existiam outros trabalhadores rurais, assim como artífices e criados de casa que só detinham uma vantagem real: poderem adquirir um pedaço de terra própria ou mudarem-se para dentro da área dos concelhos onde a sua promoção social e económica era já possível.
A nobreza era constituída por várias classes sociais: ricos-homens, infanções, cavaleiros e escudeiros distinguiam-se com nitidez de comportamento, de direitos e deveres bem diferenciados. Porém, o significado de cada grupo dilui-se de tal maneira que, pelos fins do séc. XVI, havia os vassalos do rei, os cavaleiros e os escudeiros.
A base económica da nobreza são as quantias ou soldos que o Rei paga em troca do serviço militar e os rendimentos das prestações impostas aos camponeses dos domínios senhoriais em trabalho, géneros ou dinheiro. Por vezes, o Rei gratificava membros da nobreza com a doação de prestações que a terra recebia de terras suas.
O clero, como grupo social, não constituía classe homogénea e possuía até pouca individualidade própria. Nas fileiras superiores, os bispos, os abades e os mestres das ordens militares eram grandes senhores feudais, actuando e reagindo como membros da alta nobreza.
Distinguia-se assim o alto clero e o baixo clero, sendo alguns deste último mesmo servos pessoais. Havia ainda o clero regular e o clero secular. Como a nobreza, o clero era uma classe privilegiada: não pagava impostos, recebia protecção superior, assumia direitos sobre os populares.
Vivia, no entanto, uma classe bem diferenciada, bem homogénea e bem cônscia dos seus direitos e do seu papel dentro do Estado: os letrados, os lentes da universidade, os tabeliães, os advogados, os físicos e os boticários que, saídos do povo, mas quase sempre privilegiados, se aproximavam da nobreza, do clero e da burguesia mercantil.
Quanto à mulher, há que salientar uma diferença na sua posição social: a donzela e a senhora (domina). A donzela, sob o poder paterno e inibida portanto de influência e de irradiação, ocupava pouca ou nenhuma importância social. Pela sua insignificância jurídica e impedida de dar, ela não correspondia a um louvor, muitas vezes interessado, expresso na canção trovadoresca. Por isso, merece destaque o facto de os trovadores endereçarem o seu grande amor a mulheres casadas, de modo que poderá ver-se em muitas canções dedicadas à dona um servilismo real e um carácter voluntariamente adulterino que o trovadorismo português quase totalmente desconhece. O amor trovadoresco é, por via de regra, um fingimento, mais um produto da inteligência e da imaginação do que propriamente da sensibilidade. É preciso, no entanto, notar que este amor imaginativo dá por vezes os tormentos do grande e verdadeiro amor.
Cultura e Língua
As literaturas iniciam-se normalmente por obras em verso. É que nas civilizações do passado a mais corrente forma de comunicação e de transmissão da obra literária não é a escrita mas sim a oral. Em Portugal os conventos de Lorvão, Santa Cruz de Coimbra e Alcobaça foram célebres nas suas oficinas de manuscritos, mas a escrita constituía então um meio acessório de transmissão da cultura. É com a transmissão oral, através dos jograis-recitadores, cantores e músicos ambulantes que divulgam nas feiras, castelos e cidades um repertório musical e literário, que a mesma cultura tem de contar. Esse repertório, dirigido a um público iletrado de vilões, burgueses e nobres, servia-se das línguas locais, inspirava-se na vida e interesses do público e consistia sobretudo em poemas e narrativas versificadas. Na verdade, a forma mais corrente de comunicação e de transmissão da obra literária não é a escrita, mas sim a oral, quando esse ritmo se baseia no isossilabismo, isto é, na regularidade quanto ao número de sílabas reforçada pela rima. A nossa poesia primitiva obedeceu, sem dúvida, a estes cânones. Para a sua propagação muito contribuiu a língua que na faixa ocidental da Hispânia sempre se distinguiu do falar/falares das outras regiões. Do romanço aí falado veio a constituir-se, ao norte, o dialecto galaico-português. Com as conquistas este estendeu-se progressivamente sobre a parte meridional, absorvendo o romanço que aí existia, ou identificando-se com ele, e penetrando no Algarve, no reinado de D. Afonso III. Dada a independência política de Portugal, deveria necessariamente resultar o que de facto resultou: a diferenciação entre o português e o galego.
A Lírica Trovadoresca
São escassos os dados biográficos acerca da maioria dos poetas que subscrevem estas cantigas. Sabemos que o gosto de fazer poesia alastrou, nesta época, por todas as classes sociais. Assim, a par dos trovadores, criadores da poesia desinteressada, "por galantaria cortesã e comprazimento estético", havia os jograis, homens de condição social inferior que cantavam músicas e poesias alheias, ou por vezes as próprias extraindo daí rendimento para a sua sobrevivência. O jogral andava de castelo em castelo para entreter os senhores e era acompanhado da soldadeira ou jograleza, mulher que dançava e cantava o que o jogral tocava, pois as cantigas eram, por vezes, acompanhadas de música.
Trovadores nobres são numerosos, já que o ambiente de corte portuguesa, sobretudo de D. Afonso III e D. Dinis, era propício ao cultivo da poesia. D. Dinis foi um extraordinário trovador, quer a nível de perfeição, quer de fecundidade, sendo cento e trinta e oito as suas cantigas.
Esta poesia, que ultrapassou no séc. XIII a fase da literatura oral, foi recolhida na sua maior parte e reunida em importantes antologias, chamadas Cancioneiros. Os Cancioneiros constituem um valiosíssimo documento histórico e literário da nossa Idade Média, pois as tradições, os costumes, as ideias, as preocupações, o quotidiano dessa época estão presentes nas composições dos diferentes poetas.
O Ambiente Cultural
Segundo uns, é uma época de trevas, de anarquia, de opressão política, de fanatismo religioso, e muitos se insurgiram contra a tirania da Igreja, que impunha, de uma forma absoluta, o seu poder espiritual e a "barbárie feudal". Mas, segundo Augusto Fuschini, a "pálida aurora do mundo moderno começa a despertar a partir do séc. XI". Na sua perspectiva, o espírito místico do Cristianismo e as profundas misérias sofridas pelo mundo romano geraram a lenda do "milénio", período de mil anos em que todos, vivos e mártires, haveriam de gozar, sob o reino de Deus, as maiores delícias.
Mas esta Justiça implicava o fim do mundo, cheio de dores e flagelos, que se aproximaria. E as gentes, fracas, supersticiosas, acreditavam que estava chegado o momento: o último dia do séc. X.
E todos esperavam por esse dia trágico, em que os mortos ressuscitariam e os vivos seriam sujeitos ao juízo final, em que se faria então justiça e os bons poderiam ser recompensados e os maus castigados e lançados nas penas infernais. Neste dia, o pânico apoderou-se das almas e as igrejas encheram-se de crentes que esperavam a catástrofe e a sua libertação, entre prantos e rezas. Mas nada aconteceu, e o sol raiou mais belo que nunca. Não podemos deixar de sentir, através deste facto, a grande ignorância de todas as classes sociais salvo raras excepções. Até entre os eclesiásticos eram poucos os que sabiam ler. Até D. Dinis, nenhum rei assinou qualquer documento, e eram muitos os fidalgos analfabetos; e havia mesmo clérigos e juízes que não sabiam ler.
A bruxaria, o demonismo teciam as almas das gentes de medos, esperanças e terrores. O segundo período da Idade Média é já bem diferente. No séc. XI, a sociedade cristã entra numa evolução acentuada. A Escolástica sobrevive ainda, mas ganha uma outra força no séc. XIII, com S. Tomás de Aquino e Francis Bacon. O primeiro lançaria os fundamentos da Metafísica e da Teologia e o segundo, da ciência experimental. Podemos dizer que esta época foi muito importante na formação da Civilização Ocidental, tendo sido marcada pelos seguintes aspectos:
- Criaram-se novas classes sociais, como o proletariado, novas formas de trabalho e outras concepções religiosas surgiram.
- Formaram-se novas nacionalidades e a Europa reconstituiu-se e adquiriu estabilidade uma vez terminadas as guerras germânicas e árabes.
- Trava-se, no entanto, uma luta aguerrida entre os dois poderes: a Igreja e o império. Mas dão as mãos na guerra contra os Sarracenos, e as Cruzadas confirmam esta aliança.
- Síntese da fé e do saber. Santo Agostinho pregava: "entende para que possas crer; crê para que possas entender".
- A mundividência do homem medieval assenta na realidade do mundo divino, no teocentrismo. O mundo terreno não é mais que um símbolo do mundo divino, não é mais que a passagem obrigatória para alcançar a verdadeira felicidade.
- As obras de Platão e Aristóteles, Cícero, Séneca ou Virgílio e Ovídeo são estudadas e integradas e adaptadas à nova mentalidade cristã, e todos os valores culturais de inspiração clássica são subordinados a finalidades éticas e religiosas.
- O estudo da Teologia ocupa o primeiro lugar: é que o ideal da vida do homem medieval é essencialmente teocêntrico - tudo gira à volta de Deus.
- Todos os valores culturais se vergam às finalidades éticas e religiosas.
- Os centros da cultura medieval são os conventos. Os mosteiros transformam-se em escolas e centros de difusão desta cultura, que tem uma grande importância na formação da língua portuguesa, como na prosa literária. As obras são traduzidas e redigidas nos conventos. São documentos valiosos para o conhecimento da mentalidade e dos interesses do homem medieval.



